"Se ocorrer prescrição, não será minha culpa". Um alerta no julgamento da Operação Naufrágio
STJ
"Se ocorrer prescrição, não será minha culpa". Um alerta no julgamento da Operação Naufrágio
Ação penal 623, derivada da operação que revelou o maior escândalo do Judiciário do ES, finalmente começou a ser analisada, mas novos atrasos podem ser irremediáveis
Publicado em 22 de Maio de 2025 às 13:42
Públicado em
22 mai 2025 às 13:42
Colunista
Letícia Gonçalves
lgoncalves@redegazeta.com.br
STJ iniciou na quarta-feira (21) julgamento da ação penal derivada da Operação Naufrágio, que revelou o maior escândalo do Judiciário capixabaCrédito: Reprodução
A Operação Naufrágio foi deflagrada em dezembro de 2008, a denúncia do Ministério Público Federal, contra 26 pessoas, foi apresentada em 2010 e recebida apenas em 2021, quando 15 denunciados tornaram-se réus. O julgamento mesmo começou apenas na quarta-feira (21). Trata-se, portanto, de uma novela que se arrasta há 16 anos e quatro meses.
Nesse período, cinco dos envolvidos já morreram e vários crimes prescreveram, ou seja, tenham sido ou não cometidos, o Estado já não pode punir ninguém.
E o risco persiste. Nos primeiros minutos do julgamento da Ação Penal 623, o presidente do Superior Tribunal de Justiça (STJ), ministro Herman Benjamin, fez o alerta:
"Como presidente, eu tenho o dever de alertar que este processo, para alguns réus, a prescrição penal é em novembro, portanto, prescrição penal muito próxima".
O relator do caso, ministro Francisco Falcão, por sua vez, fez questão de ressaltar, durante a sessão, logo em seguida:
"Eu quero informar a vossa excelência que este processo está tendo e teve celeridade no meu gabinete. Se ocorrer a prescrição, não será por minha culpa".
O presidente contemporizou, disse que fez apenas uma observação objetiva sobre a data de prescrição, sem "nenhuma análise" sobre o que levou a tal situação.
Mas Falcão fez: "Este processo tramitou em outro tribunal, depois tramitou aqui, mas não no meu gabinete".
"Só para deixar claro que, no meu gabinete, processos não dormitam"
Francisco Falcão - Ministro do STJ
A Naufrágio é o maior escândalo do Judiciário do Espírito Santo, pelo fato de ter levado magistrados e advogados à prisão e ao centro das atenções. Áudios de interceptações telefônicas causaram furor, na época, e são a principal prova do Ministério Público no caso.
O número de denunciados e o fato de o processo ter mudado de foro por mais de uma vez — começou a tramitar no STJ, foi para o Tribunal de Justiça do Espírito Santo, para o Supremo Tribunal Federal e depois voltou para o STJ — são as principais circunstâncias apontadas como motivos do atraso.
Mas, convenhamos, para quem é inocente, a demora é cruel. É ter o nome vinculado a um escândalo sem fim, vez ou outra lembrado pela imprensa, e sentir-se injustiçado.
Para quem cometeu alguma irregularidade ou crime, porém, a prescrição é um bálsamo. O inconveniente é pagar advogados por tanto tempo.
No primeiro dia de julgamento, o Ministério Público se pronunciou, pediu a condenação dos 15 réus pelos crimes de corrupção e corrupção passiva. Quatorze advogados fizeram sustentações orais, expuseram argumentos favoráveis aos réus.
Isso durou mais de seis horas, ocupou a manhã e a tarde, com intervalo para o almoço. A AP 623 foi o único processo apreciado pela Corte Especial do STJ na quarta-feira.
Falta mais uma sustentação oral, a apresentação do voto do relator e os votos dos demais ministros da Corte Especial. O colegiado é composto, ao todo, por 15 membros.
O julgamento vai ser retomado no dia 4 de junho, às 11h. Francisco Falcão lembrou, durante a sessão de quarta, que o voto dele já está redigido e foi disponibilizado para os pares desde o dia 7 de maio.
"O voto tem 670 páginas, 157 apensos e 26 mil páginas, só para conhecimento. E prescreve em novembro deste ano"
Francisco Falcão - Ministro do STJ
Logo, os ministros têm muito trabalho pela frente e quaisquer novos atrasos podem ser irremediáveis.
A demora do desfecho da história também é escandalosa, por si só.
Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo, ingressou na Rede Gazeta em 2006, como estagiaria no Gazeta Online/ CBN Vitoria. Em 2008, passou a atuar como reporter da radio. Em 2012, migrou para a editoria de Politica de A Gazeta, tambem como reporter. Exerceu a funcao de editora-adjunta de 2020 ate 2021, quando assumiu a coluna Leticia Goncalves.