Um tema tem sido recorrente nos discursos, nas entrevistas e nas peças de propaganda elaboradas pela maioria dos candidatos ao governo do Espírito Santo: a segurança pública, ou a falta dela.
Desde a fatídica greve da PM, em 2017, o assunto tem se tornado cada vez mais relevante, não somente em relação ao que ocorre nas ruas, mas também dentro dos quartéis.
Não é coincidência que o reajuste salarial para servidores das forças de segurança dê o tom das propostas. Mas ninguém arrisca garantir um percentual específico.
O governador
Renato Casagrande (PSB), desde a campanha de 2018, sinaliza à tropa, com anistia administrativa aos grevistas, o que ele cumpriu, e mudança na lei de promoções dos militares.
Concedeu um reajuste à categoria. Não foi o suficiente. Líderes de associações de policiais alegam acordos não cumpridos.
Na tentativa de reeleição, o socialista lembra que fez investimentos, comprou viaturas etc. E acena com o cerco eletrônico – um sistema de câmeras com software avançado – que está em expansão justamente quando falta um mês para o primeiro turno.
Ele também trabalha com estatísticas, mostrando a gradual queda no número de homicídios, principalmente em comparação com 2011.
"A segurança é um desafio. Em 2011 o Espírito Santo tinha dois mil homicídios por ano. Hoje temos mil. Não é algo a se comemorar, mas isso mostra que estamos no caminho certo. Éramos o segundo estado mais violento, hoje somos o 13º", afirmou, a uma plateia de empresários na última segunda-feira, repetindo o que tem dito frequentemente.
O ex-deputado federal
Carlos Manato (PL), desde antes de se apresentar como pré-candidato ao Palácio Anchieta, já percorria as associações que congregam policiais e bombeiros militares.
Filiado ao partido do presidente Jair Bolsonaro, que tem forte apelo na classe, ele tenta ao máximo se aliar a pautas desse espectro ideológico e também corporativo, em busca de votos.
"Combinei com eles que, nos quatro anos, escaladamente, vamos fazer a recuperação (salarial). O reajuste da inflação vamos dar para todos os funcionários, vamos trabalhar com essa meta. Alguns setores, começando pela polícia, vamos além disso, vamos recuperar o passado, que hoje está perto de 40%", afirmou Manato, em entrevista à coluna e a colegas da imprensa.
Ele diz, portanto, que os policiais vão ter um tratamento diferente do dos demais servidores, assim como Casagrande já fez.
"Não vou conseguir fazer isso (recompor 40% de perda salarial) no primeiro ano, vai ser gradativamente. Tem outros mecanismos, dentro do plano de cargos e salários, para fazer algumas compensações, Vamos priorizar (servidores da) segurança pública, não só policiais", emendou.
Manato também quer instituir uma Polícia de Divisa, uma Polícia Rural e voltar com a Rotam (Ronda Ostensiva Tática Motorizada). Segundo ele, a única capaz de acabar com os frequentes tiroteios em Vitória.
Tudo isso demanda efetivo, que hoje está em falta. O candidato diz que, se eleito, vai fazer concursos, com 500 vagas cada um, e chamar PMs da reserva para atuar nas divisas.
Casagrande também já anunciou um concurso, com mil vagas.
Enquanto isso, o ex-prefeito de Linhares
Guerino Zanon (PSD) considera todos esses problemas e salienta que, para garantir segurança não bastam policiais e sim ações sociais.
Quer, dessa forma "subir o morro sem colete". Mas só depois de implementadas tais ações.
Mas ele alerta para mais um problema: a superlotação no sistema carcerário. É um fato matemático, a ser enfrentado por quem quer que seja o eleito.
“Tem um estopim aí que a sociedade precisa ser alertada”, frisou o ex-prefeito.
Guerino deu os números, confirmados por Casagrande: o Espírito Santo tem 23 mil presos e 13 mil vagas em presídios. O déficit de 10 mil vagas não pode ser desprezado.
"O que está acontecendo aqui na rua é fruto do que está acontecendo lá, dentro dos presídios", destacou.
"É preciso diminuir os conflitos, para conter o crescimento (de detentos), mas tem que abrir mais vagas (no sistema prisional)".
Casagrande diz que criou cerca de 400 vagas nos últimos quatro anos e vai criar "mais mil agora", até o final do ano. "Precisa fazer mais unidades prisionais. Mas hoje o sistema está controlado, em termos de entrada e saída", ponderou.
Lembrado de que mil vagas são insuficientes frente às dez mil necessárias, o governador admitiu que "não dá para a gente criar dez mil vagas em quatro anos". Nem num eventual governo dele e, provavelmente, nem de um outro.
"Acho que a gente consegue criar duas, três mil vagas (no próximo mandato)", calculou o socialista.
Se a greve da PM foi emblemática para o Espírito Santo, o mesmo se pode dizer do sistema carcerário.
De lá pra cá as coisas melhoraram. Cenas de detentos permanentemente mantidos em delegacias ou em ônibus do lado de fora dessas unidades já não são comuns.
Quando Guerino diz que o que acontece nos presídios se reflete nas ruas, ele lembra de uma verdade que muitos preferem ignorar. Até chegar o dia em que isso não será mais possível.
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