Em jogo, está o dinheiro do fundo eleitoral e um dado da realidade: mulheres existem na sociedade, por que não estaríamos em espaços de (mais) poder?
Publicado em 28 de Dezembro de 2021 às 02:10
Públicado em
28 dez 2021 às 02:10
Colunista
Letícia Gonçalves
lgoncalves@redegazeta.com.br
A vice-governadora, Jacqueline Moraes, e a vice-prefeita, Capitã EstéfaneCrédito: Jansen Lube
O vice, ou a vice, de um candidato a governador ou a presidente da República, cargos que vão estar em disputa em outubro do ano que vem são postos definidos aos 45 do segundo tempo, ou na porta do cartório eleitoral, como se diz. Mas desde já isso suscita especulações.
Não raro, ainda mais depois que a verba para fazer campanha passou a ter que ser dividida na mesma proporção do número de candidatas – se 30% são mulheres, elas têm que receber 30% do dinheiro – os nomes cogitados para vice são de mulheres.
"Vocês veem o tanto que as mulheres estão sendo procuradas, ainda não para ser presidente, mas para ser vice-presidente", afirmou a empresária Luiza Trajano, do Magazine Luiza, durante seminário no Supremo Tribunal Federal (STF), no último dia 10.
Trajano foi sondada para disputar a Presidência da República, como cabeça de chapa, inicialmente, mas recusou.
Quem se lançou foi a senadora Simone Tebet (MDB), que não quer nem ouvir falar nessa conversa de ser vice.
No Espírito Santo, a vice-governadoria do estado é chefiada por uma mulher, Jacqueline Moraes (PSB). Na prefeitura de Vitória, também há a vice, Capitã Estéfane (Republicanos), assim como em Cariacica, com a Enfermeira Edna (Avante).
Em uma unidade da federação em que o feminicídio e a violência contra a mulher saltam aos olhos, nem é preciso dizer que o machismo corre solto. "Ah, nada a ver, tanto que a vice-governadora é mulher, ó", dirão os que negam o machismo. Por que será que negam, não é?
Só para registrar, não é apenas a falta de leis mais duras ou "colocar os caras na cadeia" que perpetua a violência, física ou psicológica, contra a mulher por essas bandas. É a ideia de que mulheres estão aí para isso mesmo, para se submeter a humilhações, para superar qualquer coisa "em nome da família", mas não para assumir protagonismo.
Ser vice, se for apenas para os partidos cumprirem a tabela da obrigação legal para o destino do fundo eleitoral, ajudando assim a turbinar a campanha do candidato a governador (afinal, a vice é mulher e o dinheiro está indo "para ela") não ajuda em nada.
Jacqueline Moraes diz que com ela não funciona assim. "Você foi eleita dentro de uma chapa, tem uma função, um salário, uma estrutura. Foi decisão minha não assumir nenhuma pasta", afirmou, à coluna.
Ela poderia ser vice e, ao mesmo tempo, comandar alguma secretaria no governo, o que lhe daria mais visibilidade. "Eu falei que eu queria ser a vice empoderada, com autonomia para coordenar ações em todas as pastas", emendou.
Em Vitória, a vice também não é secretária municipal. Capitã Estéfane tem comparecido a algumas agendas no lugar do prefeito, Lorenzo Pazolini (Republicanos), notadamente as organizadas pelo governo do estado.
O Republicanos tem a pré-candidatura ao governo do deputado Erick Musso e Pazolini não tem aparecido sob os holofotes ao lado do governador Renato Casagrande (PSB).
Voltando à questão das mulheres na política, há os casos das que iniciam a trajetória partidária seguindo os passos dos maridos. Aliás, Jacqueline Moraes foi vereadora em Cariacica, cargo ocupado anteriormente pelo marido dela, Adilson Avelina.
"Por que ele foi vereador eu virei vice-governadora? Eu não estava na cozinha, eu participava da política. As leis que vieram fortalecendo, como a cota nos partidos, depois a cota financeira, ajudaram. Qual o problema? Eu sou fruto da cota, se não fosse isso, ninguém me conheceria, mas também sou vocacionada. Não vejo demérito nisso", pontuou a vice-governadora.
Simone Tebet, pré-candidata à Presidência da República, é filha de Ramez Tebet, ex-presidente do Senado. Ramez faleceu em 2006. Não é incomum, no Brasil e até em democracias mais consolidadas, que filhos sigam os passos dos pais na política, mas a pecha de ser o remix e não o original cai mais sobre as mulheres, para variar.
Esta coluna, caro leitor, ou leitora, é apenas para registrar que, seja do partido A, B ou C, com definição em cima da hora ou desde já, as mulheres estão na vida pública, seja na política partidária ou não. Eu mesma estou aqui.
Então é natural, ou deveria ser, que sejamos representadas nas esferas de poder e sejamos também submetidas ao mesmo escrutínio que os homens. Não é para ser café com leite e tampouco para sermos julgadas por nossa aparência física, idade, ou outras coisas que não têm relação com a vida pública.
Nossos mais proeminentes políticos (homens) não venceriam um concurso de beleza. E tá tudo bem.
Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo, ingressou na Rede Gazeta em 2006, como estagiaria no Gazeta Online/ CBN Vitoria. Em 2008, passou a atuar como reporter da radio. Em 2012, migrou para a editoria de Politica de A Gazeta, tambem como reporter. Exerceu a funcao de editora-adjunta de 2020 ate 2021, quando assumiu a coluna Leticia Goncalves.