O Vicariato Para Ação Social Política e Ecumênica da Arquidiocese de Vitória, coordenado pelo padre Kelder Brandão, já havia criticado, por meio de uma carta pública, a lei que restringe a circulação de catadores de material reciclável em Vila Velha. A norma foi proposta pelo prefeito Arnaldinho Borgo (Podemos) e aprovada pela Câmara Municipal.
Na manhã desta segunda-feira (17), o padre decidiu tratar do assunto em meio à Festa da Penha, realizada justamente em Vila Velha. Na homilia que proferiu na missa com pastorais sociais, Kelder Brandão afirmou que a lei é "infame" e foi feita pelos que "têm nojo dos pobres".
O religioso ainda questionou outra ação da administração de Arnaldinho: "Em pleno Oitavário de Nossa Senhora da Penha, as barracas e bancas, de onde os pescadores artesanais retiravam seu sustento, foram destruídos na penumbra da noite. E quem serão os próximos?".
Sobrou também para as prefeituras de Vitória e Serra. "Em Vitória, os quiosques e barracas dos trabalhadores e trabalhadoras de rua foram cruelmente destruídas e eles não sabem o que vão fazer daqui para frente. O mesmo aconteceu na Serra, com a expulsão dos camelôs das vias comerciais. Porque tanto ódio aos trabalhadores e trabalhadoras pobres?", indagou o padre Kelder.
A homilia abordou os ataques a escolas, que vitimaram alunos e professores no Brasil, inclusive no Espírito Santo.
"Não é investindo no armamento pesado da polícia, vendendo armas para policiais aposentados ou permitindo que o medo tome conta da população e do ambiente escolar, que vamos impedir a onda crescente de violência e ódio nas escolas, mas é debatendo coletivamente, ouvindo todos os segmentos sociais, principalmente os profissionais da educação, os movimentos sociais e os diversos coletivos que interagem com as juventudes, que poderemos vislumbrar um tempo diferente em nosso estado", afirmou Kelder Brandão, na missa.
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Homilia do padre Kelder Brandão na Festa da Penha
Veja a íntegra do que o religioso falou aos fiéis nesta segunda-feira (17)
"A espiritualidade que brota do testemunho das mulheres exaltadas nas Sagradas Escrituras, como Maria, é profética e revolucionária, sendo fundamental em uma sociedade que se desumaniza a cada dia, difundindo o ódio em redes, alimentando as violências individual e institucional, estimulando a competição e o individualismo e que se torna cada vez mais indiferente à dor e ao sofrimento alheio", avaliou o religioso.
CATADORES DE MATERIAL RECICLÁVEL
A lei municipal 6.803, publicada no Diário Oficial de Vila Velha no dia 28 de março, proíbe a circulação de carrinhos de catadores de material reciclável no Centro e na maioria das vias da cidade.
Se um carrinho, puxado pelo próprio catador, for flagrado em vias urbanas, rurais, arteriais, coletoras, em rodovias, na orla ou a menos de 300 metros de um terminal de ônibus – além de qualquer rua do Centro de Vila Velha – o catador pode ser multado em "100 (cem) VPRTM`s – Valor Padrão de Referência do Tesouro Municipal".
Pelo valor do VPRTM de 2023, isso equivale a R$ 417. E a multa deve ser cobrada em dobro a cada reincidência.
O carrinho ainda vai ser recolhido pela prefeitura e o catador vai ter que pagar pelas despesas de remoção e estadia. A lei já está em vigor, mas precisa ser regulamentada por um decreto do prefeito antes de ser posta em prática.
A REPOSTA DE ARNALDINHO BORGO
O prefeito
já falou com a coluna e rebateu as críticas do padre: "Repudio uma nota dessa de um padre que nem buscou informação do que está acontecendo e já julgou, de forma isolada. A gente gostaria de convidá-lo para conhecer a cidade e a política que a gente aplica, fazendo o resgate social de diversas pessoas. Ele está desinformado".
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