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Crônica

Acabou-se o que era doce

Passaram uma rasteira feia na criançada. Tomaram delas o saco de brinquedos e o enterraram bem fundo no quintal. Em troca, deram a elas um computador e um celular

Publicado em 05 de Novembro de 2023 às 01:30

Públicado em 

05 nov 2023 às 01:30
Marcos Alencar

Colunista

Marcos Alencar

marcos_alencar@terra.com.br

Ilustração de Amarildo para a coluna de Marcos Alencar
Tomaram das crianças os brinquedos e as brincadeiras que se aprendia nos recreios e nas ruas Crédito: Amarildo
Passaram uma rasteira feia na criançada. Tomaram delas o saco de brinquedos e o enterraram bem fundo no quintal. Os brinquedos e as brincadeiras que se aprendia nos recreios e nas ruas, depois de fazer o dever de casa. Em troca, deram a elas um computador e um celular. E só.
Não é de hoje que a criançada vem sendo tungada. Arrancaram delas todos os verbos que se usava para responder perguntas. Era assim: “Você gosta de picolé de coco?” E elas respondiam “gosto” ou “não gosto”. Hoje a fórmula é outra. “Você gosta de refresco de açaí?” E todos respondem, economizando o verbo: “sim” ou “não". Em todas as perguntas que buscam a aprovação infantil está definitivamente proibido o verbo nas respostas.
A informática é uma ótima diversão. Mas será que precisava dar um chispa no Chicotinho Queimado? E naqueles jogos de baralho, engraçados: o Porco, o Fedor, e o Burro em Pé? Duvido que um moleque de dez anos saiba enfiar a mão esquerda no sovaco direito e abaixar este braço com força algumas vezes provocando um falso “pum”. Nunca mais se viu um garoto afiando, na beira da calçada, um pedaço de vergalhão para fazer dele um “finco” pra jogar “ferrinho”. A garotada não brinca mais de Boca de Forno, Batatinha Frita Um-Dois-Três, de Chicotinho Queimado e nem joga mais Pedrinhas. Nem brincam de Escravos de Jó, nem de Passar o Anel e nem jogam pião. Também pudera, estão todos “on”, economizando nas respostas, engolindo o verbo e respondendo sim ou não a todas as perguntas. E quando chegam da escola não trazem mais um “dever de casa” para fazer. O nome mudou. Agora eles trazem “tarefas”. Parecem mais um imediato de navio. E mais dias, menos dias, a Inteligência Artificial virá correndo pular em seus braços.
Sei das vantagens destes novos tempos. Elas, desde pequenas, já sabem gravar uma conversa, mandar mensagens, fotografar e a trocar o conhecimento dos pais pelo o do Google. Mas se não praticarem nenhum esporte, vão demorar um tempão para aprender a xingar. Numa boa.
Pelo menos os novinhos seguem fazendo uso do lápis, comme il faut. Na verdade o fazem, mas de uma forma truculenta. Tipo um torturador esganando a vítima. Já repararam? Todos, todos mesmo, deitam o lápis no ângulo formado pelo polegar e o indicador, dobram o polegar por sobre ele – como se o estivesse asfixiando –, espremem bem e... Escrevem. Um horror. E parece que esta prática não é coisa recente. Tem muito adolescente por aí estrangulando também a esferográfica.
Felizmente as menininhas ainda brincam de casinha e os menininhos continuam implicando com elas. Nem tudo está perdido.

Marcos Alencar

Marcos Alencar é colunista de A Gazeta

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