Moleque atento, aprendi desde cedo como tratar as pessoas que se mostravam fora dos padrões comportamentais da maioria. O mau gosto no vestir ou na maneira rude ao falar era próprio de um Jeca Tatu. Ou de uma outra figura, à escolha no rico cardápio da época: capiau, caipira, arigó, pé duro, roceiro... Um cruel tratamento que aprendemos em nossas casas, na casa dos amigos, na vizinhança. Hoje em dia preferimos usar brega ou pé de Cachorro
Tudo aquilo que escapasse da linha reta do bom comportamento social ou que traduzisse o despreparo político/profissional de uma figura era etiquetado sem pena e sem dó. E dessa maneira seguimos pela vida afora rotulando, debochando, às vezes até humilhando quem julgássemos merecedor.
Mas na verdade muitos deles - talvez muitíssimos - fizeram e fazem por merecer. Dou a mão à palmatória: vez por outra nós mesmos, que nos orgulhamos de sermos um exemplo a ser seguido, vez por outra escorregamos na maionese e nos tornamos merecedores de um desses qualificativos.
A criatura que não dá uma dentro, no trabalho, no papo da esquina, no despreparo para conduzir a própria vida, não tem jeito: é um babaca, um tonto, um zero à esquerda, um zé mané. E num grau mais elevado, uma besta quadrada, um imbecil, um asno, um idiota completo. Quem, num restaurante, trata mal o garçom, fala alto e gargalha como se estivesse na casa da sogra é... um bronco, um animal, um grosseirão.
Boi lambão, lambanceiro... Era assim que a gente se referia a quem chupava uma manga e lambrecava ao mesmo tempo o rosto, os cabelos e quem mais estivesse à sua volta. Hoje a gente chama o cara de porcalhão.
O mentiroso já foi um “gabola”. Um tratamento até gentil. Mas hoje em dia não se tem mais nenhum respeito com quem mente. Amigos ou parentes queridos, depositários da nossa simpatia, levam apenas um peteleco “vai se catar!” Mas quando o mentiroso é homem público, a coisa fica mais braba: “cara de pau, “escroto” chegando até a um vigoroso “filho de uma égua”.
Bocó, tan-tan, ruim da bola, doido varrido, avoado, era como se referiam às pessoas com alguma deficiência mental. Hoje quase todos usam apenas o “pirado”. Mas, de plantão, na ponta da língua, permanece o velho e cruel “doido de pedra”.
Fui me embrenhando por essa selva de gírias pra tentar me esquecer de uma notícia que li no jornal. A notícia contava que a Prefeitura de Vila Velha anda analisando a sugestão de um assessor que pensa em fincar uma gigantesca placa, na matinha do Morro do Moreno, informando que Vila Velha fica logo ali. Uma placa meio mocoronga, copiada daquela “Hollywood”, de Los Angeles. Cada letra com sete metros de altura! Achei uma senhora ideia de jerico. Pobre de marré, marré de si. Alguém precisa lembrar aos deslumbrados da assessoria que placa nenhuma deste mundo conseguirá ofuscar todo o esplendor e a beleza arquitetônica e religiosa do que o centenário Convento da Penha.
Se a notícia também lhe pisou no calo, use e abuse da coleção de malcriações aí de acima. Eu mesmo ainda não encontrei o carimbo adequado. Fico, por enquanto, apenas matutando com os meus botões: “Será que esse pessoal não tem nada melhor pra fazer?”