O genial poeta paraibano Augusto dos Anjos só precisou de um único poema para desvendar o secular mistério do nascimento de uma ideia. “De onde ela vem?! De que matéria bruta / vem essa luz, que sob as nebulosas/ cai de incógnitas criptas misteriosas/ como as estalactites de uma gruta?! Vem da psicogenética e alta luta/ do feixe de moléculas nervosas, que em desintegrações maravilhosas/delibera e depois quer e executa.”
Tenho quase certeza de que foi daí que o presidente Lula tirou a ideia de que as suas opiniões sobre a guerra serão levadas a sério pelo Hamas, por Israel e pelos principais líderes mundiais. Talvez inebriado pelos efeitos voltaicos da “psicogenética e alta luta”. Ou, quem sabe, possuído pelo feixe de moléculas nervosas? Vai saber...
E o poeta prossegue: “Vem do encéfalo absconso que a constringe/ chega em seguida às cordas da laringe / tísica, tênue, mínima, raquítica/ quebra a força centrípeta que a amarra/ mas, de repente, e quase morta, esbarra/ no molambo da língua paralítica.”
O poeta não imaginava a estrondosa transformação que iria causar no, até então, singelo vocabulário do brasileiro quando se referiu ao ‘molambo da língua paralítica”. Pois foi a partir daí, acho, que a turma semialfabetizada partiu para luta. Um país quase inteiro de gente que só se expressava num português melancólico passa, de uma hora para outra, a caminhar de mãos dadas com a língua inglesa. E tudo aprendido por aí.
Hoje em dia eles já usam e abusam dos substantivos. Verbos, preposições e adjetivos, ainda capengam. Mas tenho a impressão de que não vai demorar muito e eles já estarão dando um show. Alguns exemplos do vocabulário atual dos brazilians brothers: backup, show, e-mail, bike, checklist, like, check-in, fuck, outdoor, spoiler, login, freelance, delivery, shopping, top, vip, airbag, link, home office, cool... a lista é enorme. Tente você aumentá-la e vai se surpreender como os nossos quase bilíngues conterrâneos, mancos no português, andam por aí se exibindo no salto alto da Lady Gaga.
Uma outra grande incógnita desafia o mais acurado entendimento racional. Ninguém consegue explicar o estranho comportamento das pessoas diante de uma faixa de pedestres. Nem mesmo, acho, o poeta paraibano. Quem então seria capaz de explicar de onde foi que tiraram a ideia de que atravessar por uma faixa de pedestres na diagonal é mais seguro e rápido do que seguir em linha reta?
Reparem só: as pessoas começam a travessia à partir da primeira listra. Ato contínuo seguem ligeiro em direção norte ou sul. Como se puxadas pelas mãos. Jamais caminham em linha reta. Será que isso tem a ver com as “incógnitas criptas misteriosas”? Ou por emanações rebeldes “do encéfalo absconso que a constringe”? Não faço a menor ideia.