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Crônica

O dia em que o Topo Gigio me fez parar na cadeia

Para mim, pessoalmente, esse tal de Topo Gigio não teve a menor graça. Graça mesmo tinha um outro preso que me ensinou como eles chamavam o relógio despertador: bobo alegre

Publicado em 12 de Novembro de 2023 às 00:40

Públicado em 

12 nov 2023 às 00:40
Marcos Alencar

Colunista

Marcos Alencar

marcos_alencar@terra.com.br

Amarildo
Ilustração da crônica de Marcos Alencar Crédito: Amarildo
A primeira vítima da ditadura de 64, presa num quarto escuro, amordaçada e sem direito a receber visitas foi o humor. O mágico e fundamental humor. Não apenas aquele oferecido pelos programas do gênero, no rádio e na televisão. Algemaram também o humor natural que brotava de nossas conversas jogadas fora.
Conversas que traziam mais luz aos nossos dias numa concorrência saudável com o sol, o iluminador oficial de plantão. As boas piadas que comandavam as gargalhadas nos bares foram levadas das mesas pelo medo. Medo dos porões, dos mandões, medo de tudo. Um senhor medo.
A desconfiança morava em cada canto, dormindo de olho aberto no cantinho do balcão do boteco. Havia temor pelas quinze bandas. A verdade é que a cada dia havia sempre alguém de butuca. A graça, aquela que sabe como ninguém fazer cosquinhas em nossas ideias, tristemente havia puxado o carro. Pisou fundo no acelerador sem data para voltar.
Apesar dos pesares, dos temores diários e dos pesadelos noturnos, seguíamos pela estrada afora, trotando e pedindo aos céus a claridade de volta. E então, no meio desse caminho, eis que os italianos nos mandam um brinquedinho para nos distrair.
Pelas mãos do humorista Agildo Ribeiro, a televisão nos presenteia com a brejeirice infantil do boneco Topo Gigio. O país inteiro aplaudiu. Era um quase nada, mas conseguiu trazer por uns tempos os nossos sorrisos de volta. Em cada casa, embarcando na alegria das crianças, voltamos também a brincar um pouco. E o simpático ratinho italiano saiu das lojas de brinquedos e veio fazer parte de nossas famílias. Chegou em boa hora.
Mas minha falta do que fazer foi o fator determinante naqueles dias. Foi ela quem aplaudiu de imediato a minha brilhante ideia de jerico. Não pensei nem um pouco na enrascada em que estava me metendo quando escrevi para um jornal a crônica “Como assaltar banco em Vitoria”. Na mesma época em que os assaltos a bancos, para financiar a luta pela volta da democracia, começaram a se tornar comuns no país, eu apontei um holofote em minha própria direção.
A história era bobinha. Bobinha mesmo. Os ladrões entrariam nos bancos, carregando um monte de bonecos Topo Gigio, distribuiriam entre os funcionários que ficariam encantados com aquele presente surpresa. Momento em que os ladrões fariam a limpa na maior facilidade.
Claro que ninguém entrou nos bancos e muito menos deixou felizes seus funcionários. A federal é que entrou em minha casa, me levou preso e me trancou em uma sala apertada, quente e cheia de mosquitos. E uma mesa a guisa de cama. E uma terrível acusação: suspeito de autoria intelectual de assalto a bancos. Dividia o catre comigo um contrabandista de café. Dias terríveis de interrogatórios e noites mal dormidas. Apurada a minha inocência fui solto dez dias depois.
Para mim, pessoalmente, esse tal de Topo Gigio não teve a menor graça. Graça mesmo tinha um outro preso que me ensinou como eles chamavam o relógio despertador: bobo alegre. E me contou de outros apelidos muito engraçados. Ri muito, mas deixei pra lá. Cachorro mordido de cobra tem medo de linguiça.

Marcos Alencar

Marcos Alencar é colunista de A Gazeta

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