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Crônica

Quando o espelho é amigo da onça

Se liga, gente fina! Pé no chão e cabeça no lugar. Os espelhos estão de sacanagem com vocês!

Publicado em 29 de Outubro de 2023 às 01:30

Públicado em 

29 out 2023 às 01:30
Marcos Alencar

Colunista

Marcos Alencar

marcos_alencar@terra.com.br

Ilustração de Amarildo para coluna de Marcos Alencar
Ilustração de Amarildo para coluna de Marcos Alencar Crédito: Amarildo
Sou um cara corajoso. Falo sério. A verdade é que  já enfrentei muitos perigos nesta vida e, modéstia à parte, subi ao pódio em todos os embates em que me meti. Escapei de todos sem arranhões e até contando marra quando achava que merecia umas medalhas de ouro. Quando, por exemplo, ainda adolescente, desafiava as cheias e a correnteza braba do rio Itabapoana, no norte fluminense, durante as chuvas de verão. Atravessava a nado aquele turbilhão de águas barrentas até o pomar de um cidadão brabo, fincado no lado capixaba, na margem oposta do rio. O rio era brabo, o dono do pomar também, mas as goiabas eram doces que só elas.
Uma vez em Havana, em noite de inesquecível boemia, segurando em cada mão os melhores vícios de los hermanos: na direita, o rum e na mão esquerda o inigualável charuto local. Trocando figurinhas com o dono do festejado boteco “La Bodeguita del Medio”, perguntei-lhe se não conseguiria pra mim uma cédula de três pesos. Uma joia rara cubana. Ele me sugeriu oferecer dez dólares ao primeiro cara que eu encontrasse pela rua, em troca daquela raridade. Já passava da meia noite quando dei de cara com um sujeito cantarolando pela calçada mal iluminada. Segui a bula que me deu o dono do bar.
O cara topou e me fez segui-lo por cinco ou seis quarteirões, entrar num prédio meio em ruínas, onde morava. Muita escuridão. Minhas pernas tremiam, apesar do calor colatinense. Mas o honesto cubano não demorou em me trazer a nota de três pesos, levar os dez dólares e me desejar “buenas noches”. Como um valente soldado voltando do front, marchei de volta à segurança do quartel. Quer dizer, do hotel.
Entregue a farrinha de fim de semana na Fafi, acabei perdendo o último ônibus pra casa. A casa ficava no bairro de Nazareth. Dinheiro pra táxi não havia. Amigo pra dar uma carona, só por milagre. Sai dali caminhando e xingando quando, no areal em frente ao Cine Jandaia, um cavalo olhou pra mim. E eu olhei pra a ele. Com o meu cinto improvisei um arremedo de barbicacho, montei no animal e numa velocidade de meio quilômetro por hora parti madrugada adentro. Cheguei em casa com as pernas bambas e o coração trotando. Foi preciso muita coragem pra cruzar a faixa final. E olha que eu jamais havia montado num cavalo.
Mas coragem pra ninguém botar defeito quem tem mesmo são estes guerreiros vaidosos, os rabiscados. Diante de sua coragem, eu sou neném. Essa exibida turma, pintada pra guerra da decoração corporal, não tem adversários à altura. São os imperadores e imperatrizes do estilo tatuado de ser. É tatuagem pra tudo quanto é lado: é no braço, na perna, no tronco, rosto, pescoço, ombros, tudo junto e misturado. Um combo completo. Peles como telas. Algumas capazes de deixar o Cacique Raoni roxo de inveja.
E o que mais chama a atenção é a fé inquebrantável que eles têm nos espelhos da casa. Eles chegam a ouvir os espelhos aplaudindo de pé o seu imaginário esplendor e formosura.
Se liga, gente fina! Pé no chão e cabeça no lugar. Os espelhos estão de sacanagem com vocês! Podem apostar.

Marcos Alencar

Marcos Alencar é colunista de A Gazeta

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