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Crônica

Se Tupã topar, tá feito

Todo mundo já notou que, quando chove, os bandidos não saem para luta armada.  Nestes dias pode-se almoçar sem sustos

Publicado em 15 de Outubro de 2023 às 02:00

Públicado em 

15 out 2023 às 02:00
Marcos Alencar

Colunista

Marcos Alencar

marcos_alencar@terra.com.br

Ilustração da crônica de Marcos Alencar
É preciso que chova. E chova muito. E sempre Crédito: Amarildo
É sempre o desespero que nos leva a bater à porta de um salvador. Seja ele uma entidade religiosa, uma delegacia de polícia, um amigo valentão ou um comprimido de Lexotan para acalmar um pouco e pensar na melhor solução para o caso.
E cada caso é um caso. Por exemplo, diante de um cão enfurecido, babando, com os dentes arreganhados e a cem por hora na direção da barriga da sua perna, só existem duas saídas: catar uma pedra e caprichar na pontaria ou se entregar à enfurecida fera, torcendo para que o pronto-socorro esteja vazio de pacientes e cheio de médicos para lhe atender.
Mas sempre existirão ataques indefensáveis a cada esquina, prontos para nos destruir. A cólica intestinal é um grande exemplo. Aquela dor repentina e avassaladora só ficará em paz depois de deixar manchada a sua roupa de baixo. Nada ou ninguém é forte o bastante para conter esta besta-fera. Na primeira fisgada pode apostar que o mundo virá a baixo. E no caso, aromatizado.
O “tô me lixando!”, comportamento de gente sem noção, também morde, mas é a paciência da gente. Puxando o cordão do exibicionismo caboclo, Janja vive hoje de dar canja onde não foi chamada. Ela se acha uma estrela. Quando dá de cara com um jato de portas abertas, lá vai ela constranger os brasileiros mundo afora. Como deletar madame? Só com reza forte. Freud explicaria? Duvido.
Coisas banais a gente larga de banda. Como os ciclistas que pedalam pela Praia do Canto e até hoje não sabem a diferença entre ciclistas e pedestres. Eles não sabem bem o que são e fazem cara feia quando, na pressa de suas obrigações, você buzina pra eles desocuparem o beco. A faixa, quero dizer. Aí eles fazem cara feia. Esqueça. Deixe eles pra lá.
Mas a grave situação da segurança pública na Grande Vitória é o que nos desespera. E o quadro piora dia após dia. Policiamento ostensivo, serviço de inteligência, disque-denúncia, blá, blá, blás, estas armas tradicionalmente usadas no combate à criminalidade não têm resolvido o problema. Estamos perdendo esta guerra de lavada. A bandidagem diariamente mata, assalta, rouba, sequestra, trafica, fabrica armas, fazem o diabo. Hoje em dia os telejornais do Estado vivem retratando a nossa derrota diariamente. Day by day.
Mas aqui na planície acredita-se que exista uma solução revolucionária pra tirar a gente deste buraco fundo. Todo mundo já notou que, quando chove, os bandidos não saem para luta armada. Nestes dias pode-se almoçar sem sustos. São dias em que a televisão nos pega no colo.
Criminosos são figuras excessivamente vaidosas. Relógios, óculos, tênis, capotes, bermudas e jeans de primeira linha habitam o guarda-roupa dessa moçada. E essa fortuninha eles jamais levarão pra chuva. Tá doido?! Jogar por terra uma rica elegância afanada? Nunquinha! Em dias assim eles ficam trancados sonhando com o tempo bom. Choveu, a farrinha é na casinha. E nós poderemos ir à rua como se a felicidade até existisse.
Conclusão: é preciso que chova. E chova muito. E sempre. A chuva é a nossa bomba atômica. Onde encontrar as instruções? Ora, perguntem aos índios. Aprendam com eles. E eles dirão que a mágica começa assim que se enfia um cocar na cabeça. Que enfiem, pois, corram pro mato e entreguem-se com fervor à Dança da Chuva. Como dizem por aí, “na vida, quem não dança... dança.”

Marcos Alencar

Marcos Alencar é colunista de A Gazeta

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