Saudades de Marien Calixte, o rico presente que esta cidade ganhou por obra e graça do destino. Há dez anos, numa noite de Natal, ele nos deixava. A nós, seus amigos, e a cidade de Vitória, sua oficina de trabalho e prazer.
Jornalista, escritor e inspirado fotógrafo amador, Marien tornou-se mais um capixaba pelo amor que dedicava a nossa cidade. Autor de um punhado de livros, dos festivais de jazz, ele foi diretor do Teatro Calos Gomes e diretor de redação de A Gazeta. Difícil escolher em que área Marien foi melhor. Sem medo de errar diria que ele foi melhor em tudo aquilo a que se dedicou.
Secretário Estadual de Turismo, Marien foi quem fez a melhor foto de tudo aquilo que nós sentíamos, mas não sabíamos como dizer. Em uma frase bem curta, mas de tamanha nitidez, ele revelou seus sentimentos, comungados logo por todos nós insulares: “Esta ilha é uma delícia”. E nem precisou de um ponto de exclamação ao final. Cada um que a lia trazia a exclamação no rosto.
E Vitória era mesmo uma delícia. Bandidos, assaltos, assassinatos, vandalismos... tudo isso era era pura ficção. Coisa de filmes de bangue-bangue. Parece mentira, mas as crianças brincavam nas ruas. Verdade! Sonia Martha Anders, nossa mais famosa miss, caprichava no andar para cruzar a Praça Oito e atrair mais olhares, meu sogro Attila Guimarães, de boa vontade, era quem aplicava injeções a pedido de amigos vizinhos na Praia do Canto, o fumacê empurrava a mosquitada para longe e trazia a criançada para brincar no rastro escuro da fumaça.
Milson brilhava nos palcos, na pista do samba nas mesas dos bares, nos festivais de música, na literatura infantil, no desenho, no teatro, puxando o bloco das Unidas de Carapeba. Carmélia era rainha no trono de cada bar que frequentava. Debochando, com muita classe, de Deus, povo e governo. Zé Lopes, o showman, já era um show. Maura Fraga, a jornalista, cantava bonito quando lhe dava na telha. Vera Espíndula e Emilia Petinari, bom humor até dizer chega.
A incansável farra dos inigualáveis filhotes do Britz, nós. Os sábados de alvoroço dançante na Fafi, as inigualáveis noitadas da boate Buteko, o Miramar, que era lugar de fazer onda, e as noites de lua cheia nas quintas-dançantes do Iate Clube. A frequentadíssima e histórica Escola de Datilografia Remington no Parque Moscoso, o movimentado político-café da Praça Oito.
E o melhor: o passeio de bonde até a Praia do Barracão, nas manhãs de domingo. Dependurado no estribo, claro. Um trio imbatível: Marcelo Osório, Robson Rossoni e Zé Carlos Saleme, quando juntos, não tinha pra ninguém. Quem não conheceu, perdeu.
Alípio Cesar e Jara Guilherme de Almeida, uma dupla do mais alto astral. Ronaldo Nascimento, primeiro e único, valia por uma, duas, três ou mais noitadas sempre que batia ponto em nossa beira. Cariê, Zé Costa, Toninho Rosetti e Edson Dias, inteligência e bom humor de presente pra quem quisesse.
Outro invejável quarteto : Terezinha Calixte, Beth Osório, Raquel Benezath e Sheila Silva. Nazareth Guimaraes, meiga presença nos bailes de carnaval do Alvares Cabral. Folia até o dia amanhecer. Samuel Xavier, Helio Mendes, Joao Virgílio e Os Mamíferos brilhavam e a gente deslizava pelas pistas da Ilha. E aplaudia incansavelmente o violão de Maurício de Oliveira e o pistom de Cícero Ferreira. E o Urano Souza, hein?! A bela voz ou o belo sorriso: qual era maior?
Mas pra nossa tristeza, Vitória mudou. E mudou muito. Banhistas não fazem mais castelos de areia nas praias. Bebem cerveja agora. Quem canta agora canta em dupla. E as melodias parecem primas. Como são parecidas! E tome de filas nas Upas e nas lotecas pra ver se a sorte pinta antes da morte.
Só nossos políticos continuam os mesmos. A imensa maioria deles vive por aí repetindo as mesmas promessas, gastando o dinheiro da gente, viajando noite e dia pelas redes sociais, mas entregues à luta renhida por dias melhores. Dias melhores pra eles mesmos, claro.