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Machado de Assis

A opinião pública existe mesmo quando parece ausente

Em 1867, Machado de Assis falava já considerava a opinião pública como uma soberana, "rainha do mundo".

Publicado em 21 de Setembro de 2020 às 06:00

Públicado em 

21 set 2020 às 06:00
Marcus André Melo

Colunista

Marcus André Melo

online@redegazeta.com.br

O escritor Machado de Assis
O escritor Machado de Assis Crédito: Reprodução
A opinião pública é um objeto elusivo. Entre nós, Machado de Assis chamou atenção para as questões centrais em torno do tema: a opinião pública existe? O que significa exatamente? É corrompível? Como muda? Como afeta os governantes? Machado, ao contrário de Pierre Bourdieu, respondeu afirmativamente à primeira questão: sim, ela existe.
Machado escreveu sobre o tema em 1867, e não se falava ainda em democracia constitucional, mas governo representativo, regime de opinião. Assim, Machado interpela a opinião pública como uma soberana, "rainha do mundo":
"Dizem alguns que V. Excia. não existe; outros afirmam o contrário. Mas estes são em maior número, e a força do número, que é a suprema razão moderna, resolve as dúvidas que eu porventura possa ter. Se não existisse, como se falaria tanto em seu nome, na tribuna, na imprensa, nos meetings, na praça do comércio, na rua do Ouvidor?"
Mas a força do número pode ser imprevisível e violenta: "A verdade é que V. Excia. tem às vezes caprichos singulares; gosta da cor vermelha, e a pretexto de eleição, inspira não sei que maus ímpetos ao leão popular, que a tudo investe e tudo desfaz." Quando a maioria irrompe devido a estes ímpetos: "V. Excia. não tem cetro, como rainha que é, tem um cacete, que é um teorema infalível". Tudo se cala frente ao cacete.
A opinião pública pode ser corrompida? Sim, "o pior é quando, em vez de ímpetos, apenas se emprega o meio da corrupção das urnas, da sedução do votante, da intervenção do 'fósforo'" [gíria para o eleitor que votava no lugar do outro].
Embora a corrupção na sua forma, digamos, mais grosseira tenha sido eliminada, permanecem novas formas de "sedução do votante". É o que ocorre hoje quando se recorre a notícias falsas: "criações fabulosas, conspiração para asseverar aquilo que não é".
Sim, as denúncias e indignação eram (são) ubíquas. Machado já as apontava com fina ironia : "Francamente, eu creio que V. Excia. desconhece todos esses meios, e os condena, e se acaso os sofre é por honra da firma".
O ponto mais instigante é a pergunta final: "Em todo caso, por que não protesta V. Excia.? É deste silêncio que algumas pessoas tiram a conclusão de que V. Excia. não existe".
Sob que condições a indignação se converte em protestos –o silêncio transmuda-se em barulho– é uma questão aberta até hoje em que pese avanços nas pesquisas sobre ação coletiva e falsificação de preferências. Muitas vezes ela está latente, sem manifestações concretas na opinião pública, e irrompe subitamente. Há também a questão intrigante a respeito das maiorias silenciosas.
Machado estava certo: a opinião pública existe mesmo quando parece ausente.
*O colunista é professor da Universidade Federal de Pernambuco e ex-professor visitante da Universidade Yale. Escreve às segundas

Marcus André Melo

É professor da Universidade Federal de Pernambuco e ex-professor visitante da Universidade de Yale.

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