Nosso povo — e aqui digo em perspectiva de Brasil — conseguiu realizar, ao meu ver, uma das mais gloriosas epopeias humanas que foi transformar imposições, privações e agressões em belas manifestações culturais.
Em um país que foi erguido à vigília de cruz e chibata e projetado para perpetuar o distanciamento das classes sociais, o povo, carregando nos ombros e tomando no lombo, gingou para cima das adversidades e recriou mundos que hoje são formas autênticas de pertencimento e formação de identidade cultural. A Semana Santa, período em que estamos, é uma ótima época para se compreender como tal fenômeno se manifestou em nosso Estado.
O Espírito Santo nasceu acompanhado de uma ideologia catequizadora e é curioso constatar que é justamente em um dos períodos mais importantes do calendário que nossos elementos populares emergem à luz da sociedade.
Diante da tradição católica de não comer carne durante a Semana Santa, aumenta-se a procura por um prato que representa a formação social do nosso povo: a torta capixaba. De origem indígena, tendo como base um prato típico dos nativos de misturar diversos tipos de peixes e mariscos, a torta recebeu influências europeias com o incremento do azeite, clara em neve e outros condimentos. Em restaurantes, bares e, principalmente, através de empreendedores individuais, a nossa torta ocupa seu lugar de protagonismo e vai às mesas dos capixabas em deliciosa forma materializada da essência identitária do nosso povo.
Outra
tradição que deságua pelas ruas é a do Fecha Corpo. A bebida, à base de ervas e cachaça, tem como função proteger o corpo dos males dos mundos espirituais e carnais. Possivelmente de origem africana e indígena, houve um tempo, desnudo de extremismos religiosos, em que tomá-la era obrigação do indivíduo, independente do seu credo.
Alguns até costumavam fazer uma versão sem álcool para que a molecada também pudesse se proteger. Na Sexta-feira Santa, pelas calçadas e bares, altares improvisados são montados para comportarem as garrafadas mágicas que, a cada ano, vão sumindo das ruas e refugiando-se em locais mais privados, em fuga da onda moralista religiosa que nos assola.
Importante dizer que o Fecha Corpo não é genuinamente capixaba, mas é um importante componente do nosso tradicional espetáculo pascoal.
Tendo comida e bebida, faltam apenas a dança e a música, para fechar a grande celebração da vitória sobre o projeto de morte colonizador e firmar as trincheiras da resistência. O batuque acontece no Domingo de Páscoa. A data é a escolhida por algumas bandas de congo para realizar a Derrubada do Mastro de São Benedito, ritual que sela o fim do ciclo de louvação ao santo.
Pela tardinha, enquanto as famílias desfazem suas mesas e finalizam a celebração do renascimento, as cantadeiras e batuqueiros vão às ruas. Com estandartes, tambores e cantos firmados no gogó, deitam o mastro que carrega o santo preto e fazem, à sua maneira, forjada nos sincretismos e recriações advindas das imposições, a grande festa da ressurreição espiritual.
Em um estado onde a identidade costuma ser negada, ocultada ou remodelada com adereços externos, ir às ruas no período em que estamos e viver todos esses elementos é um ato civilizatório. É fazer renascer, internamente, o próprio Espírito Santo, e aqui não me refiro à Terceira Pessoa da Santíssima Trindade.