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Tradição

Cosme e Damião: um dia que superou as expectativas em Vitória

Para os que têm como função o ato de distribuir, as movimentações do festejo começaram antes da data. Grande parte rumou para a Vila Rubim

Publicado em 02 de Outubro de 2025 às 04:40

Públicado em 

02 out 2025 às 04:40
Marcus Vinicius Sant'Ana

Colunista

Marcus Vinicius Sant'Ana

marcus.historia.es@gmail.com

Em meu primeiro escrito do mês passado para esta coluna, falei, brevemente, sobre a tradição da entrega de balas e doces no dia de São Cosme e São Damião (27 de setembro), bem como seus sincretismos e a história da manifestação no Espírito Santo. Nele havia, confesso, um certo teor melancólico causado pelo enfraquecimento do costume em nossas terras nos últimos anos, temendo o seu fim por completo.
Se em 4 de setembro de 2025 meu sentimento, vivência e pesquisa foram publicados sob a manchete: “Cosme e Damião merecem voltar a ser festejados pelas crianças como antigamente", hoje, após viver mais uma data pelas ruas da minha cidade, posso traçar um outro discurso.
Este, muito mais otimista e incentivado por uma uma deliciosa ressaca de quem viveu intensamente um 27 de setembro, repleto de balas, doces, crianças, fé e brincadeiras que, em conjunto, firmaram-se como uma doce fagulha de esperança em um mundo que parece se conformar com a predominância de amargores.
Assim foi.
O dia 27 de setembro ter caído em um sábado contribuiu bastante para efervescência da tradição. A garotada, livre das aulas, teve o dia inteiro para realizar suas buscas e caças por casas que estavam entregando as famosas sacolinhas.
Já para os que têm como função o ato de distribuir, as movimentações do festejo começaram antes da data. Grande parte rumou para a Vila Rubim, onde encontram-se algumas lojas de doces e que, mesmo em outras ocasiões, são o destino dos que procuram produtos com um preço mais acessível.
Os corredores das lojas de doce pareciam mais a área externa de um terreiro, de uma roda de samba ou de qualquer outro ambiente popular de nossa cidade. A turma toda se conhecia e, enquanto formava seu estoque, trocava dicas de preços, de montagem dos sacos e locais de distribuição.
Tamanha foi a procura pelas guloseimas que, nos dias que antecederam à data, as prateleiras das lojas já estavam carentes de elementos primordiais para as sacolinhas e até as próprias sacolas, aquelas tradicionais, estampadas com listras brancas, verdes, estrelas vermelhas e a imagem dos santos, acabaram em tempo recorde e os que tardaram na ida às compras tiveram que encontrar outras alternativas.
Chegado o dia, logo cedo foi possível se deparar com algumas movimentações tradicionais do dia de Cosme e Damião. As gangues - no bom sentido da definição - de moleques desceram às ruas com direito a mochila nas costas, mapeamento dos locais de distribuição e gritos sincronizados de “queremos bala!”.
Na Cleto Nunes, avenida que faz a ligação do Parque Moscoso com a Vila Rubim, encontrei uma dessas trupes de caçadores de doces. Estavam retornando de casa, onde foram esvaziar suas mochilas para irem à procura de mais sacolinhas lá pelas bandas de Santo Antônio.
Em bairros como Romão, Caratoíra e Forte São João, tudo como manda a tradição: corre-corre, gritaria, filas se formando e as ruas vivendo a alegria infantil como nos velhos tempos em que éramos livres de doutrinas impositoras. Instituições como terreiros, coletivos sociais e escolas de samba, que entendem seu caráter popular e de proximidade com a manifestação, também cumpriram seu papel e fizeram a alegria da criançada com eventos voltados para o público infantil.
Evento beneficente organizado pelo Baianinho do Acarajé, distribuiu quatro mil acarajés na Praça Costa Pereira, em Vitória
Evento beneficente distribuiu acarajés na Praça Costa Pereira, em Vitória Crédito: Fernando Madeira/Arquivo
O ciclo dos festejos foi finalizado com muita comida, música e arte. Na última terça-feira (30), na Praça Costa Pereira, Edivan Alves, conhecido como Baiano do Acarajé, cumpriu sua promessa de distribuição. Ele, ainda criança, passou fome em sua terra natal e, ao ver aqueles fartos tabuleiros de comidas típicas baianas, fez uma promessa a Cosme, Damião e aos Ibejis firmando que, caso sua situação de vida mudasse, distribuiria doces e comidas para a população em geral.
Tendo sua graça atendida, mantém a tradição há mais de vinte anos em solo capixaba e neste ano não foi diferente. Enquanto uma multidão se fartava de caruru, acarajé e xinxim, atrações como Monique Rocha, Palhaço Cachoeira e Banda de Congo Vira Mundo deram vida à praça que, no restante do ano, acostuma-se apenas com o movimento passageiro do vai e vem de pessoas apressadas.
É óbvio que, com o olhar nostálgico de quem viveu tempos idos, as manifestações do dia de Cosme e Damião da atualidade estão longe de ter a mesma efusividade de outrora. Mas quem analisa o atual cenário de nossa sociedade, de constante entranhamento nas práticas do cotidiano por parte de uma ideologia que persegue incessantemente aquilo que não pertence aos seus cânones, existir uma Vitória que ainda se endossa com uma das mais belas manifestações criadas pelo nosso povo é motivo de sobra para acreditar em dias menos amargurados pela intolerância.
Salve Cosme, Damião, Doum, a Ibejada e todo seu povo!

Marcus Vinicius Sant'Ana

É historiador e mestre em Estudos Urbanos pela Universidade Federal do Espírito Santo. Pesquisa a cultura capixaba e manifestações populares brasileiras. É comentarista da CBN Vitória, no quadro Histórias do Cotidiano

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