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Cultura popular

Muito além da avenida: o carnaval como potência e resistência social

O carnaval é mais que festa: é espaço de inclusão, cidadania e transformação nas comunidades que o constroem o ano inteiro

Publicado em 16 de Outubro de 2025 às 04:00

Públicado em 

16 out 2025 às 04:00
Marcus Vinicius Sant'Ana

Colunista

Marcus Vinicius Sant'Ana

marcus.historia.es@gmail.com

Em meu primeiro escrito nesta coluna falei sobre uma cidade que faz carnaval durante os 365 dias do ano, extrapolando os limites temporais destinados à data e vivendo intensamente as minúcias que resultam nos grandiosos desfiles apresentados na passarela da folia. Como disse lá nos confins de fevereiro deste ano, um carnaval começa imediatamente após o fim do anterior, formando um ciclo constante de imersão carnavalesca para aqueles que tratam a arte como um elemento vital para suas vidas.
Recentemente, uma dessas etapas que compõem a preparação carnavalesca foi encerrada. Ao anunciar o tema “Cricaré das Origens. O Brasil que nasce em São Mateus”, que exalta a história e cultura do município de São Mateus, a Rosas de Ouro, escola de samba do município da Serra, finalizou a lista dos temas que serão abordados na avenida no próximo ano pelas agremiações do Grupo Especial do carnaval capixaba. As notícias que publicaram a escolha da escola, ao detalhar sobre a verba que será enviada pela Prefeitura de São Mateus, abriram as jaulas dos vociferantes de ocasião, que não perdem uma oportunidade de destilar todo seu ódio a elementos culturais.
Campeã do Grupo B em 2024, Rosas de Ouro abriu os desfiles do Grupo de Acesso nesta sexta no Sambão
Rosas de Ouro desfilando pelo Grupo de Acesso no Sambão do Povo no Carnaval de Vitória em 2024 Crédito: Fernando Madeira
Nada de novo em uma sociedade composta por alguns que costumam subjugar tudo aquilo que vem das camadas populares, amparados por um conjunto de normas e regras que, curiosamente, adapta-se aos seus interesses. Não costumo destinar tempo dando ibope às investidas do tipo, mas como a cruzada dos intolerantes é movida por desinformação, abrir as portas do universo carnavalesco é forma de combater a perseguição.
A verba destinada às escolas de samba é mesmo um dinheiro jogado como confete para custear o desfile de uma agremiação? Se fossem, não seria problema, tendo em vista que muitas outras festas também são subvencionadas por cifras do tipo, mas, não. Não são! A começar pelos rasos argumentos dos promotores de internet, o dinheiro empregado nas escolas de samba não é retirado e nem poderia ser aplicado em outros setores como saúde e educação. São verbas já destinadas para o setor da cultura ou do turismo, e tal ação é pautada na interpretação de que elementos culturais como eventos, grupos, coletivos e práticas são dotados de potencialidades econômicas e, consequentemente, de retorno financeiro.
Usando o próprio carnaval como exemplo, segundo o portal Capixabices, referência em informações carnavalescas, para os desfiles de 2025 o governo do Espírito Santo investiu R$ 2,5 milhões, entre emendas parlamentares e recursos do Tesouro Estadual. Já a Prefeitura de Vitória, tendo como base o mesmo carnaval de 2025, projetou a movimentação de cerca de R$ 40 milhões e a geração de 6 mil empregos diretos e indiretos. Tais dados comprovam que as verbas públicas aplicadas no carnaval e nas escolas de samba são, na verdade, um investimento que gera um considerável retorno aos cofres públicos e positivas devolutivas àqueles que se empregam em suas atividades.
Confesso, porém, que me incomoda bastante todo esse digladiar de números e quantias, como se o povo do carnaval devesse, anualmente, se defender das perversas investidas habituais, expondo a sua capacidade de multiplicar os trocados dados pelas esferas públicas. Usar argumentos econômicos apequena a principal virtude de uma escola de samba, virtude essa que, por si só, já justificaria todo e qualquer investimento: sua potência social!
Como disse anteriormente, o universo do carnaval de escola de samba não se resume aos desfiles e suas noites camaróticas e midiáticas. As quantias arrecadadas pelas escolas de samba – e aqui, incluem-se também as que não são públicas, já que essas estão longes de cobrirem todos os gastos feitos durante o ano – custeiam um conjunto imenso de ações que as agremiações realizam em suas comunidades e que reverberam em positivas devolutivas sociais e coletivas.
Potencialidade que, importante salientar, não foi desenvolvida visando uma prestação de contas das verbas dadas pelo Estado. Foi, na verdade, adquirida desde o nascimento das escolas, em um cenário de constante abandono desse mesmo Estado, onde elas emergiram como equipamento de amparo, assistência e pertencimento a um povo que não se via contemplado pelos conceitos de cidadania e sociedade igualitária.
Mas retornando às engrenagens das agremiações: o que é visto nas noites de desfile são apenas a consagração de ensaios, encontros, reuniões, palestras, enfim, de diversas ações que exercem competências educativas, inclusivas e assistencialistas. Quadra de escola de samba, terreiro firmado como chão sagrado para os componentes da escola, é um espaço que constantemente é destinado para ações sociais como consultas médicas, arrecadação de alimento, palestras e cursos profissionalizantes ou simplesmente um ambiente de sociabilidade, localizado em territórios que as políticas de fomento ao lazer não costumam chegar com a mesma frequência que chegam em outros territórios da cidade.
Os enredos e seus filhos sambas-enredo, quando discutidos e cantados, propagam conhecimento histórico e cultural, de forma leve e construtiva. Quem se permitir a tal experiência no carnaval capixaba deste ano, aprenderá sobre a história das cidades de Guarapari e São Mateus; sobre a epopeia da Princesa Teresa da Baviera em terras capixabas no século XIX; sobre o João Bananeira, símbolo da cultura e resistência do povo de Cariacica; sobre as culturas das festas juninas, preservação ambiental, elementos das religiões de matrizes africanas e diversos outros temas presentes em nosso cotidiano.
Os ensaios e outros encontros e eventos, na mesma medida que são momentos de preparação e construção do carnaval, são, também, experiências de sociabilidades que amenizam gritantes fragilidades sociais presentes no cotidiano dessas comunidades. A turma da bateria, que ensaia semanalmente para ditar o ritmo da escola, encontra no agrupamento um sentido de coletividade que contrapõe e oferece alternativa às seduzentes e perigosas outras filiações que as rondam. 
Passistas que sambam, no mais autêntico reflexo corporal da arte citada, reproduzem a liberdade de padrões estéticos e de gênero que costumam imobilizar práticas simples do cotidiano de muitos deles, que encontram na ala a ideologia emancipatória para uma vida com menos imposição. O simples cantar de um samba na quadra, por muitas vezes, expele tristezas, angústias e frustrações geradas pelo ritmo do mundo, sendo uma terapia eficaz contra os tempos adoecedores que vivemos.
Críticos de ocasião jamais entenderiam esse universo de autoproteção e resistência. Os que entendem, deixam de ser críticos. Alguns até entendem, mas preferem permanecer na crítica. Esses são os que, chegado o grande dia, aparecem mendigando ingressos para os badalados camarotes e áreas vips, para contemplar de perto o que passaram o ano todo apedrejando. Compreensível.
Até mesmo os mais ferrenhos dos algozes merecem a dádiva de presenciar a esplêndida capacidade do nosso povo de transformar perseguições, privações e adversidades em um dos maiores espetáculos populares do Espírito Santo.

Marcus Vinicius Sant'Ana

É historiador e mestre em Estudos Urbanos pela Universidade Federal do Espírito Santo. Pesquisa a cultura capixaba e manifestações populares brasileiras. É comentarista da CBN Vitória, no quadro Histórias do Cotidiano

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