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Cidade

O Centro de Vitória está realmente abandonado?

Olhem vocês, no ano passado eu ministrei um curso no Sesc Glória, às quartas, à noite. Em uma delas, marquei de, no final da aula, tomar umas com um amigo no Boteco da Panela, no final da Rua Sete

Publicado em 19 de Março de 2026 às 04:45

Públicado em 

19 mar 2026 às 04:45
Marcus Vinicius Sant'Ana

Colunista

Marcus Vinicius Sant'Ana

marcus.historia.es@gmail.com

Das prosas e conversas do cotidiano que têm o Centro de Vitória como tema, quase todas esbarram em uma sentença que parece ser unanimidade entre os analistas de ocasião: o Centro de Vitória está abandonado!
Para quem não frequenta ou não conhece o Centro e se guia pelo discurso do senso comum, imagina o lugar como uma Chernobyl dos trópicos, com direito à bola de feno passando pela Praça Costa Pereira e cactos espalhados pela Rua Sete.
Mas essa é a realidade do nosso Centro mesmo?
Primeiramente, vamos à história.
Lojas fechadas
Lojas fechadas na Avenida Jeronimo Monteiro, Centro Crédito: Carlos Alberto Silva
O bairro Centro é uma divisão urbana que, segundo a historiografia, foi onde começou a colonização portuguesa na ilha, em meados dos anos de 1550. Por ser o núcleo inicial, ali Vitória nasceu, se desenvolveu e, por muito tempo, foi a porção territorial que era compreendida como “cidade”.
Todos os serviços urbanos essenciais lá estavam instalados, por isso, a região era o centro da cidade, o que explica o nome. Ao seu redor, até meados do século XIX, muitos locais que hoje são bairros e formam a cidade de Vitória eram apenas fazendas ou faixas extensas de manguezal. Uma curiosidade que exprime tal realidade é que moradores antigos de bairros como Santo Antônio, Jucutuquara e Maruípe, quando iam ao Centro, falavam que estavam indo “à cidade”.
Esse cenário foi vigente até a segunda metade do século XX.
Por mais que aterrar parte da baía e dos manguezais próximos tivesse proporcionado um considerável crescimento do espaço urbano, o aumento do fluxo urbano demandou mais espaço. Em um segundo momento, o Centro passou por um processo de verticalização que gerou prédios imensos, acanhados em seu pouco espaço disponível. Diante de tal esgotamento, a parte norte da cidade começou a ser ocupada com mais força, em processo que foi idealizado no final do século XIX, mas que ganhou vida mesmo no desenrolar da segunda metade do século XX.
Órgãos como Assembleia Legislativa, prefeitura municipal e câmara de vereadores migraram para as novas zonas surgidas a partir de aterros e reformas de expansão física. No que tange ao comércio, o surgimento de shoppings centers e outros centros comerciais fora do Centro, atraídos por esse movimento migratório, deu uma considerável esfriada na efervescência de badaladas avenidas centrais como Rua Sete, Princesa Isabel e Jerônimo Monteiro. As duas últimas, inclusive, são primordiais para entender nossa prosa de hoje.
Olhem vocês, no ano passado eu ministrei um curso no Sesc Glória, às quartas, à noite. Em uma delas, marquei de, no final da aula, tomar umas com um amigo no Boteco da Panela, no final da Rua Sete. Desci o Glória, passei pela Praça Costa Pereira e lá estava o Edivan com sua tradicional barraca de acarajé. Segui em direção à subida e, no entroncamento da Graciano Neves com a Rua Sete, me deparei com um chorinho rolando no Triplex Vermelho e a vista ainda conseguiu alcançar o Bimbo e a Chopperia da Praça já apinhados de gente esperando o começo do jogo do Flamengo.
Segui pela Graciano Neves pois sabia que na Casa Arabá, botequim carnavalesco, estava acontecendo uma live com profissionais do nosso carnaval. Dei um alô para o povo, continuei subindo e, no meio do caminho, já dava para ouvir uns batuques. Era uma ala de instrumentos da bateria da Piedade fazendo um ensaio setorizado. Desci a Maria Saraiva, encontrei o amigo em uma das mesas do Panela - quase todas ocupadas - e fiz questão de brindar a vivacidade do Centro que é nítida a quem se propõe a vivê-lo.
Nesse meu trajeto, não passei pelo Mercado da Capixaba, que tem samba todas as quartas, e em uma exposição que estava acontecendo no Museu de Arte do Espírito Santo.
Voltemos à pergunta inicial, agora com um aditivo: o Centro está realmente abandonado? Que abandono é esse, com tanta coisa acontecendo em um dia de meio de semana?
Vamos à Jerônimo Monteiro que ela é essencial para entender tudo isso. Viviane Pimentel, em sua tese de doutorado, explica brilhantemente que a avenida foi projetada para ter imóveis de uso misto — comércio embaixo e moradia em cima — e dessa forma se configurou como uma das principais artérias comerciais da cidade, nos tempos áureos do Centro.
Com o passar do tempo, os estabelecimentos ocuparam também os pavimentos superiores, fazendo com que a movimentação do local deixasse de ser também residencial e ficasse estritamente ligada ao movimento do comércio.
Com as já relatadas mudanças urbanas e enfraquecimento da ala comercial do Centro, a Jerônimo Monteiro — assim como partes da Princesa Isabel —, que tinha sua vivacidade diretamente vinculada ao comércio, foi igualmente enfraquecendo.
O x da questão é que, apesar de seus diversos imóveis fechados e os poucos estabelecimentos resistindo a todo esse processo de astenia urbana, a avenida segue como uma das principais vias de passagem da cidade. Quem passa por ela, principalmente em horário comercial, e a toma como a única amostra do Centro, forma a falsa impressão de que tal declínio se estendeu para todo o território que hoje compreendemos como Centro Histórico de Vitória e que ele é um deserto urbano. Assim, todas as manifestações culturais e outras vivacidades presentes no local acabam sendo ocultadas diante dessa negativa sectarização.
O abandono se faz presente, sim, na ausência de políticas públicas que amenizam as fragilidades ali presentes.
Ações que auxiliam na ocupação social de imóveis fechados, resolvendo, concomitantemente, os problemas de ostracismo urbano e social, são exemplos.
Medidas que flexibilizam o fazer de cultura, possibilitando mais ações do ramo no território e aumentando o fluxo em seus espaços e, consequentemente, reaquecendo o comércio, são outros.
Fora isso, o Centro tem, sim, seus ônus e desafios, muitos deles comuns a outros centros históricos do país, mas longe de estar abandonado.
E, para quem duvida, permita-se vivê-lo em algum momento. Garanto que a mudança de percepção será imediata.

Marcus Vinicius Sant'Ana

É historiador e mestre em Estudos Urbanos pela Universidade Federal do Espírito Santo. Pesquisa a cultura capixaba e manifestações populares brasileiras. É comentarista da CBN Vitória, no quadro Histórias do Cotidiano

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