Entendendo a data não apenas como celebrativa, mas sim como reflexiva, poderemos, de diversas formas, edificar um futuro melhor para os verdadeiros donos desta terra
Publicado em 29 de Maio de 2025 às 04:30
Públicado em
29 mai 2025 às 04:30
Colunista
Marcus Vinicius Sant'Ana
marcus.historia.es@gmail.com
Não, você não está perdido no calendário e também não estou perguntando como foi sua véspera de feriado [caso resida em Vila Velha]. O 22 de maio, pelo menos a data, está, sim, sepultada nos confins da semana que passou e, faço a pergunta mirando o dia seguinte, o 23, e toda simbologia e cerimônias celebrativas realizadas nele.
Explico indo ao que interessa: a história!
Em 23 de maio de 1535, Vasco Fernandes Coutinho, um fidalgo português veterano de conquistas colonizadoras na África e na Ásia, chegou à então chamada Capitania Undécima, faixa de terra a ele doada pela coroa portuguesa para desenvolvimento da colonização em terrae brasilis.
O nome “undécima” se dava pelo fato de a faixa ser a décima primeira capitania hereditária em contagem de norte a sul. Era um domingo de Pentecostes, que na tradição católica celebra-se o Divino Espírito Santo e sua descida dos céus, dando aos apóstolos e a Maria o dom de evangelizar. Movido pela fé, Vasco logo tratou de sacar o “undécima” do nome, rebatizando sua capitania de Capitania do Espírito Santo, alcunha que posteriormente também nomearia nossa federação.
Para além da mudança do nome, sujou a canela de verde, construiu igreja, abriu plantações e, principalmente, guerreou. Todo esse conjunto de ações constituiu o que, futuramente, narrativas históricas rotularam em termos como “descobrimento do Espírito Santo”, “início da história capixaba”, “fundação do Estado" e outros jargões que consideram a chegada de Vasco Fernandes Coutinho como o marco inicial da trajetória humana nesse solo que pisamos.
Quando perguntei sobre o 22 de maio, tentei, de forma metafórica, questionar sobre o cenário e, principalmente, sobre os atores que antecederam a chegada portuguesa nessas terras.
Teriam se deparado com um deserto, do ponto de vista habitacional? Uma terra virgem, sem donos, que há séculos esperava por desbravadores de além-mar? Sendo tão óbvia a resposta negativa para tais perguntas, por que ainda nos deparamos com um cenário de celebração e exaltação em torno do 23 de maio?
Estátua de Vasco Fernandes CoutinhoCrédito: Manoel Goes
A razão é simples: a escrita de uma narrativa construída sob a ótica do colonizador. Nela, além de uma generalização perversa, que os coloca como um único povo, ignorando suas pluralidades, identidades e culturas, os povos originários são colocados ora como o selvagem a ser domado, ora como o inimigo feroz que impede o desenvolvimento e em diversas outras rotulações que o retratam como um semi-humano que precisou da chegada dos brancos para, à base de muito chicote e catequese, encontrar a evolução e salvação divina. Sobre ela, construiu-se uma sociedade que seguiu colocando o indígena em constante condição de subalternidade e privações, atribuindo a ele uma posição pitoresca e de marginalização social.
Quando a reflexão do pré-23 de maio é provocada — e aí que está o x da questão — não é visando apenas a uma reformulação das narrativas históricas, dando ao índigena a visibilidade e a devida posição de protagonista da terra, mas é também um ato de interpretação da história como agente explicativo do presente e propiciador de ações afirmativas necessárias para nossa sociedade. Presente e sociedade que, como disse, permanecem com severas imposições e intensos martírios aos povos indígenas.
Assim, entendendo a data não apenas como celebrativa, mas sim como reflexiva, poderemos, de diversas formas, edificar um futuro melhor para os verdadeiros donos desta terra.
Obras que abordam a história indígena capixaba:
Coleção História dos Povos Indígenas no Espírito Santo - Julio Bentivoglio
Espírito Santo Indígena - Vânia Maria Losada Moreira
Marcus Vinicius Sant'Ana
É historiador e mestre em Estudos Urbanos pela Universidade Federal do Espírito Santo. Pesquisa a cultura capixaba e manifestações populares brasileiras. É comentarista da CBN Vitória, no quadro Histórias do Cotidiano