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Devoção

Tambores da Penha: uma das mais belas e autênticas manifestações de sincretismo do país

Em ritmo de congo, Nossa Senhora da Penha passou a ser evocada por tambores e suplicada através de cantigas vibrantes

Publicado em 01 de Maio de 2025 às 05:30

Públicado em 

01 mai 2025 às 05:30
Marcus Vinicius Sant'Ana

Colunista

Marcus Vinicius Sant'Ana

marcus.historia.es@gmail.com

Teve fim, na última segunda-feira (28), a Festa da Penha de 2025, evento religioso que integra a formação da identidade do povo capixaba e está entre os maiores do país no ramo. Ao contrário do que é majoritariamente mostrado durante a cobertura do período, os festejos e devoção à Penha não se definem apenas em terços, rezas, missas e na consagrada caminhada da Romaria. Em terras encruzilhadas, manifestações de fé também acontecem através de cantorias, batuques e gingas…
Vamos ao que interessa: a história!
A devoção à Nossa Senhora da Penha chegou por aqui através dos colonizadores portugueses. Trazida pelo Frei Pedro Palácios em 1558, a imagem de Nossa Senhora das Alegrias, segundo a lenda, escolheu o alto de uma montanha como morada, onde futuramente seria construído seu convento. Por causa do apego à pedra e em alusão à palavra “penhasco”, tornou-se “Penha”, uma nomenclatura criada na Espanha por um monge francês de nome Simão, e atribuída às santas cujo espaço devocional localiza-se no alto de rochas.
Congo de Máscaras Roda D`água
Congo de Máscaras Roda D`água Crédito: Ricardo Medeiros
Como disse, a santa do rochedo aportou em terra encruzilhada, racialmente falando. Um lugar onde não brancos eram tidos e tratados como não humanos, em uma estratégia de manutenção de um sistema em que moviam a engrenagem braçal. Neste cenário, até mesmo a morada da santa foi construída sobre o suor e sangue desse povo, sendo a devoção católica uma das imposições praticadas.
Entre a cruz e o chicote, eles, negros e indígenas criaram novas formas de sobrevivência e coexistência de elementos vitais. Lamento virou canto. Açoite virou toque de casaca. Sincretizaram as divindades. Reconstruíram mundos. Eludiram o projeto de morte física, cultural e espiritual de suas culturas e recriaram formas de conexão com os planos superiores.
Em ritmo de congo, Nossa Senhora da Penha passou a ser evocada por tambores e suplicada através de cantigas vibrantes. Estampou estandartes que foram chacoalhados por corpos gingados. Foi transportada em cortejos ritmados por batuques cujo os toques já haviam sido tocados para outras divindades em uma liberdade distante. Tal “afro-amerindização" da santa resistiu ao tempo, ao acossamento e tentativa de reclusão ao âmbito cultural, afastando-a do religioso.
Atualmente, mesmo que colocada em posição secundária, manifesta-se em dois momentos durante o oitavário, na Grande Vitória, ambos no dia consagrado a ela:
Na Romaria dos Conguistas, quando bandas de congo de todo o Estado sobem as ladeiras do Convento entoando seus cantos de louvação à santa; e em Roda D’àgua, Cariacica, quando acontece, ao meu ver, uma das mais belas e autênticas manifestações de devoção sincretizada do país.
Congo de Máscaras Roda D`água
Congo de Máscaras Roda D`água Crédito: Ricardo Medeiros
No bojo de um território que um dia foi um quilombo, tudo começa com uma procissão em que a santa é transportada em um andor carregado por mulheres, algo extremamente raro em manifestações do tipo. Chegada ao altar, é realizada uma missa em que os cantos litúrgicos não são acompanhados por violões e palmas de fiéis, como nas missas comuns, e sim pelos instrumentos e vozes das cantadeiras das bandas de congo presentes.
Durante todo o dia, o campo destinado para o evento é inundado pelo congo e suas diversas vertentes de manifestações, acompanhado do João Bananeira, personagem que, segundo teorias de origem, remonta vestimentas que escravizados usavam para se camuflarem e poderem curtir os festejos em tempos de liberdade sequestrada.
Bandas de todos os cantos do Espírito Santo se apresentam de forma livre, simultaneamente, explanando de forma intensa as diversas características de cada grupo, cada um com sua forma de conguear, mas todos com o mesmo propósito de perpetuar a tradição de uma forma única de expressar a fé no sagrado.
Às 18h, horário destinado à devoção mariana segundo a tradição católica, uma Ave-Maria, obviamente, em ritmo de congo, é rezada para finalizar o espetáculo do sincretismo e da autêntica cultura capixaba.
Aos conservadores, descrentes, ateus, católicos, protestantes, espíritas, espiritualistas, candomblecistas, umbandistas, enfim, para aqueles que em algum momento da passagem terrena já acreditaram que é possível exercer a fé através da alegria, vale a pena, nem que seja por uma única vez, sentir a vibração dos tambores da Penha.

Marcus Vinicius Sant'Ana

É historiador e mestre em Estudos Urbanos pela Universidade Federal do Espírito Santo. Pesquisa a cultura capixaba e manifestações populares brasileiras. É comentarista da CBN Vitória, no quadro Histórias do Cotidiano

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