Saúdo todos aqueles que fazem o futebol capixaba existir e resistir, apesar dos pesares e falácias a nós proferidos; e aos que não conhecem e ainda têm dúvidas da existência, aconselho trocar a aba do aplicativo de “Cariocão” para “Capixabão”
Publicado em 03 de Abril de 2025 às 05:03
Públicado em
03 abr 2025 às 05:03
Colunista
Marcus Vinicius Sant'Ana
marcus.historia.es@gmail.com
É comum do brasileiro promover uma caça às bruxas quando acontece algum fracasso com a Seleção Brasileira de futebol. Mais frequentes em tempo de Copa do Mundo, nelas procura-se um culpado para escudar todo o ódio de um fracasso que, na maioria das vezes, tem diversas ramificações causadoras, ignoradas pelo imediatismo causado pelo ódio proveniente de uma derrota.
Recentemente, depois de um aviltante 4 a 1 sofrido em ritmo de tango contra os hermanos, os alvos voltaram-se para a CBF e seus dirigentes e, em um desses programas esportivos, um renomado jornalista criticou e atribuiu ao fracasso o fato de que o “braço direito” do presidente da confederação é o presidente da federação de futebol do Espírito Santo, um Estado, como disse com todas as letras, que não tem futebol!
Assisti ao vídeo através de uma página voltada para o esporte capixaba e, sem nenhuma surpresa, percebi que nos comentários manifestaram-se uma chusma de pseudoentendidos concordando com a fala do noticiarista. Também, sem nenhuma surpresa, reparei que muitos deles, os mais vorazes, inclusive, são capixabas, apaixonados por seus clubes de outro estado e que normalmente portam-se como verdadeiros bairristas às avessas quando o assunto é o futebol local.
Mas, afinal de contas, temos ou não futebol? Vamos ao que interessa: a história! Ela nos diz que o primeiro clube de futebol nascido em terras capixabas foi o Alfredense Football Club, fundado em 15 de agosto de 1910 por empregados públicos, comerciantes e trabalhadores.
Na Capital, o pioneirismo é do Vitória Futebol Clube, fundado em 1912 por jovens da elite da capital capixaba, que tiveram contato com o esporte no Rio de Janeiro, enquanto cursavam suas faculdades na capital do país. No ano seguinte, em 1913, jovens de comunidades periféricas criaram o Juventude e Vigor, que viria a ser o Rio Branco Atlético Clube, nascido para rivalizar esportivamente e socialmente com o Vitória.
Apesar da disputa pela popularidade com o remo, o esporte bretão caiu no gosto dos capixabas e, nos anos seguintes ao surgimento dos primeiros times, já eram existentes outros mais como Moscoso, América, Estrela, Barroso e Americano.
TEMPOS DE GLÓRIA?
Como em toda trajetória histórica e contrariando os embaixadores do senso comum, os tempos de glórias do futebol capixaba e participação no cenário da elite nacional existiram, sim! Terceiro lugar do Rio Branco, com direito a vitórias sobre Portuguesa e Fluminense, no Torneio dos Campeões de 1937, campeonato que em 2023 foi oficializado como a primeira edição de um campeonato brasileiro; a série invicta da Desportiva entre 1967 e 1968, tornando-se, até então, a maior sequência invicta da história do futebol brasileiro; o título do Vitória na Korea Cup, em solo sul-coreano, em 1979, sendo o primeiro e, até então, único campeão internacional do Estado; o honroso quarto lugar do Linhares na Copa do Brasil de 1994, enfim, todos esses seriam alguns fatos que responderiam, do ponto de vista histórico, à pergunta que rege nossa prosa.
Linhares EC x Fluminense, pela Copa do Brasil 1994Crédito: Foto: Gildo Loyola/A Gazeta/Arquivo
Do ponto de vista contemporâneo, é possível destacar uma série de acontecimentos em que os times capixabas foram nitidamente prejudicados por “fatores externos” ao esporte, ceifando toda e qualquer possibilidade de retorno à elite nacional e resultando no atual cenário de ostracismo.
Quando tal questionamento da existência do futebol capixaba é direcionado a mim, porém, confesso que não uso nenhum desses triunfos e injustiças como provas e sigo uma linha completamente diferente para certificar a manifestação futebolística em nossas terras.
Ao olhar para história, digo que na semifinal do Campeonato Brasileiro de Seleções Estaduais de 1940, uma multidão se aglomerou na Praça Oito para acompanhar, via telegrama, o resultado da partida contra os cariocas, formando uma das maiores demonstrações de amor ao esporte e à terra já visto na nossa história;
Falo que existia por aqui um senhor de nome Lafayette Cardoso Resende, que saía de Cariacica e ia até Jucutuquara, a cavalo, para ver o Rio Branco jogar. De chapéu e capa preta para se proteger da poeira, do sol ou de uma eventual chuva, assistia aos jogos de cima do morro que ficava aos fundos do estádio Governador Bley, dando tiros para o alto quando seu time de coração marcava um gol. Tamanha demonstração de amor fez com que a figura do torcedor apaixonado fosse eternizada, dando origem ao mascote e ao apelido do clube;
A faixa no Centro de Vitória anunciando jogos do Athletico-PR no Estádio Governador Bley, contra Rio Branco e VitóriaCrédito: Pedro Fonseca
Relembro que, em uma entrevista que me concedeu, Luiz Carlos Sá, ídolo maior do Vitória, relatou que quando a delegação campeã da Korea Cup de 1979 chegou ao aeroporto, o saguão estava tomado pela Torcida Sangue Azul, pela bateria da escola de samba Pega no Samba e vários outros torcedores do alvianil, prontos para celebrar o maior feito da história do futebol capixaba. Ao olhar para o presente, cito a família Soneghet, de Santa Cecília, onde até o wifi da casa tem o nome do Rio Branco;
Falo da família Amaral, da Desportiva, em que o grená está tingido, literalmente, na pele; do pai e filhos da família Merlo e dos irmãos João Lauro e Luizinho, que fazem das arquibancadas do Salvador Costa a extensão de sua casa e da garagem de sua oficina a extensão do Salvador Costa; do Allan Lopes, professor e torcedor fanático do Serra, que usa do amor ao clube como forma de ensinar a história da cidade e dialogar sobre o pertencimento à terra para a molecada da educação pública… dentre outros exemplos que rondam praças como Sernamby, Sumaré, Justiniano de Mello e Silva e outras mais.
Se você, que está lendo, encontra-se meio perdido nesse falatório todo, explico: ao meu ver, a existência do futebol não está pautada em resultados, técnicas, divisões, transmissões, contratações e outros “ões” e sim na sua capacidade de desenvolver sentimentos, laços associativos, pertencimento e identidade através da sua manifestação.
Assim sendo, saúdo todos aqueles que fazem o futebol capixaba existir e resistir, apesar dos pesares e falácias a nós proferidos; e aos que não conhecem e ainda têm dúvidas da existência, aconselho trocar a aba do aplicativo de “Cariocão” para “Capixabão”, verificar a próxima partida e cair de cabeça no nosso universo. Garanto que, entre aquecimentos na porta do estádio, xingamentos e comemorações nos alambrados e resenhas pós-jogo para lamentar ou comemorar um resultado, a única dúvida que restará será do porquê ter demorado tanto para conhecer esse outro futebol.
Temos sim!
Marcus Vinicius Sant'Ana
É historiador e mestre em Estudos Urbanos pela Universidade Federal do Espírito Santo. Pesquisa a cultura capixaba e manifestações populares brasileiras. É comentarista da CBN Vitória, no quadro Histórias do Cotidiano