Praticamente todas as sinalizações que nos chegam da economia apontam para uma desaceleração nos meses finais do ano. De um lado, pelo fraco desempenho da agropecuária, movimento natural, que é cíclico e sempre esperado, e de outro pelas ainda elevadas incertezas que insistem em permanecer, sobretudo derivadas dos percalços e idas e vindas por parte do Executivo Federal em relação a certas decisões que tocam diretamente com a questão fiscal. Questão que mantém a inflação na categoria de resiliência.
A boa teoria econômica nos ensina que é na estabilidade que vamos encontrar os fundamentos que possibilitam as economias crescerem e se desenvolverem. Necessariamente não como condição suficiente, mas basilar. Foi assim, por exemplo, no Plano Real, em seus melhores momentos, ao sustentar-se em três pilares: as políticas monetária, cambial e fiscal. As três bem calibradas pavimentaram períodos de expansão da economia, inclusive no primeiro governo de Lula.
Esse tripé se mostra “capenga” agora. Felizmente de uma perna só. Fato que já pode ser considerado como uma vantagem considerável. E é importante ressaltar que não são derivadas da sorte as condições nas quais se encontram os pilares cambial e monetário.
No câmbio está a nos favorecer a forte expansão das exportações, sobretudo no agronegócio e em produtos da extração mineral, gerando significativos superávits externos. Esse deverá chegar a 90 bilhões de dólares neste ano. E, olhando para o futuro, não se vislumbram obstáculos que impeçam avançar mais. Nem mesmo os conflitos bélicos que estão em curso. Esses até podem abrir novas janelas de oportunidades.
No campo monetário, a autonomia do Banco Central foi uma medida acertada ao garantir que a moeda se mantenha dentro de parâmetros saudáveis, mais previsíveis e críveis, mesmo que para tanto, em momentos e movimentos mais críticos, tenha que recorrer a medidas mais dolorosas, como elevar a taxa básica de juros a patamares que acabam comprometendo o próprio crescimento da economia.
O pilar capenga é o fiscal. E é por se encontrar nessa condição que sobrecarrega o pilar monetário, forçando-o a ter que manter, por exemplo, a taxa básica dos juros ao nível no qual se encontra. O caminho da fragilização fiscal é fácil de ser entendido: a perenização de déficits nas contas do Tesouro, que faz crescer a relação dívida/PIB, leva o governo a cobri-los recorrendo ao mercado financeiro, que para tanto exige prêmios/juros mais elevados. Temos assim um círculo “desvirtuoso” cujos rescaldos chegam facilmente aos bolsos dos cidadãos e empresas tendo como veículo a inflação.
A resiliência da inflação nasce desse “moto-contínuo”. Comportamento resiliente que faz com que mesmo em queda no momento presente – foi menor do esperado em outubro -, se mantém pressionada nas projeções que o mercado faz para 2024 e mesmo para 2025. Em outras palavras, o mercado não arreda o pé em vê-la mais elevada e mais adiante no tempo. E as razões para tanto estão exatamente nas indefinições que ainda cercam as decisões no campo fiscal, com destaque para o déficit fiscal para o próximo ano.