Fui da época em que o latim fazia parte do currículo escolar. Como estudei em colégio religioso, foram sete de imersão na gramática, em traduções de textos literários clássicos como a "Eneida", de Virgílio, "Catilinárias", de Cícero e outras tantas obras. Um legado que muito me auxilia na etimologia e na compreensão da grande maioria das palavras na nossa língua portuguesa.
Assim, a palavra resiliência tem origem em “resiliens -entis”, do latim, que carrega o significado de resistência e capacidade de recuperação. E não se aplica apenas ao comportamento humano, podendo ser aplicado à física, quando um determinado material é submetido a impactos, sofre deformações, porém retorna à sua forma original. Um fenômeno que se assemelha ao que observamos hoje em relação à inflação no nosso país.
Observando o nosso processo inflacionário e as medidas para contê-lo até agora adotadas, não seria de todo descabido chamá-lo de resiliente. Percebe-se em operação um mecanismo de resistência e proteção contra investidas para contê-lo. Deformações representadas às vezes por pequenos recuos da inflação são anulados e superados em velocidades crescentes. E, nessa toada, sinalizações que possam gerar boas expectativas podem, logo em sequência, serem frustradas.
Usando a linguagem muito própria de economistas podemos dizer que o comportamento da inflação, pelo menos na conjuntura atual, mostra-se inelástico em relação às medidas que estão sendo tomadas para contê-la. De outra forma, resumindo, tais medidas, pelo menos até o presente momento, vem se mostrando inócuas, ou limitadas na obtenção de resultados esperados. O que de certa forma explica em parte a inflação que temos hoje que já chega a 12,5%.
Podemos buscar explicações para esse fenômeno, sabendo de antemão tratar-se de algo que conta com causalidades complexas e imbrincadas. A primeira delas é a de que estamos lidando com um caso clássico de inflação de custos. E não é de qualquer tipo de custo, mas de custos sistêmicos, básicos e com ampla e forte conexões com o mercado externo. Estamos falando aqui, sobretudo, de commodities estratégicas como petróleo, soja, milho, trigo, fertilizantes e defensivos agrícolas. Todas sob influência de uma guerra, cujos impactos ocorrem em escala global.
Assim, por exemplo, potenciais alívios nos preços internos que possam advir de reduções de alíquotas de importação, medida louvável, são neutralizados por subsequentes aumentos dos preços na origem. O mesmo poderá acontecer com a redução do ICMS sobre combustível e energia. Impacta também a eficácia da política monetária de aumento da Selic.
E há ainda o fator inercial, esse interno, a alimentar a resiliência da inflação. Aliás, um fator que se julgava já fora de combate.