Aprendemos em economia que lidar com um processo deflacionário é muito mais complexo e até certo ponto também mais difícil do que com o seu contrário, a inflação, mesmo quando esta ultrapassa certos limites e se torna endêmica. Por óbvio deveríamos, então, ter mais medo de queda sistêmica e prolongada de preços do que preços em geral em cenário de crescimento contínuo.
Porém, não é bem essa a avaliação de consenso pela simples razão de termos observado raros momentos em que ocorreram deflações de preços. Em contraposição, o medo da inflação sempre esteve presente, e em especial no Brasil, pelo histórico.
Mesmo sendo raros, os processos deflacionários tendem a ser mais desastrosos do ponto de vista de funcionamento da economia. São acompanhados por forte queda do nível geral das atividades econômicas e da renda, aumento acelerado do desemprego e da pobreza. Geram o que denominamos de quadros depressivos, como na crise mundial dos anos 30, e em menor escala, mesmo assim preocupante, em 2008 e 2009.
Diferentemente da inflação, que parece já estar embutida no nosso imaginário de forma permanente, fazendo parte assim do nosso dia a dia. Especialmente para nós brasileiros há sempre aquele receio de se retornar aos tempos da inflação endêmica, a hiperinflação, da década de 80, quando os preços chegaram a subir cerca de 80% em apenas um mês. Uma lembrança nada agradável para quem viveu naquela década.
Foi graças ao Plano Real, implantado em 1994, um dos planos de estabilização mais bem sucedidos até então levados a efeito no mundo, que nos deparamos hoje com uma taxa de inflação razoavelmente comportada. É saudável e perfeitamente justificável que a tenhamos sempre dentro de um aceitável intervalo de confiabilidade.
Qual seria então esse intervalo aceitável para o momento? Essa busca não é exclusiva do nosso país. Outro países também estão a procura de patamares toleráveis. E nesse aspecto há um consenso de que crescimento econômico sempre carrega consigo o conteúdo inflacionário. É que poderíamos denominar de “inflação saudável”, e que não alimenta o sentimento de “medo”.
Nos últimos 20 anos, tivemos no Brasil desempenhos bem diferentes de crescimento econômico para praticamente a mesma taxa média anual de inflação. Entre 2002 e 2010 enquanto a economia cresceu a uma média anual de 4%, os preços em geral subiram anualmente em média 6,5%. Já entre 2010 e 2022 o desempenho da economia foi pífio, crescendo apenas 0,9% em média anual, com uma inflação média anual de 6%. Obviamente existem explicações para essa diferença, que não cabe aqui discriminá-las.
O problema é que esse “medo”, que podemos chamar de medo inflacionário, acabou conduzindo o país a uma verdadeira armadilha do juros altos. Não importando, portanto, se a inflação é de demanda ou de oferta – choque de oferta – sempre se recorre à política monetária, quando esta foge dos limites que um certo consenso impõe. E juro alto não é palatável ao crescimento.