Na semana passada, o ministro Paulo Guedes deu uma de Néstor e Cristina Kirchner, quando na presidência da Argentina, ao criticar o IBGE e dizer que aquele instituto estava ainda na idade da pedra lascada em termos de metodologia de pesquisa de emprego.
Néstor e Cristina Kirchner foram além das críticas, indo às vias de fato, inclusive, manipulando principalmente dados de inflação levantados pelo órgão oficial de estatística do país. Gerou lá um “apagão de estatísticas”. Aqui, tendo a acreditar que Guedes não ousará chegar a esse extremo.
Há um erro elementar na avaliação de Guedes ao confundir pesquisa amostral com um simples processo de compilação e registros de dados. Ou seja, uma coisa é uma pesquisa de emprego feita por amostragem, ou seja, por meio de metodologia que se vale de técnicas estatísticas mais sofisticadas, tomando como base porções reduzidas e representativas de um universo mais amplo. Outra é simplesmente tabular e tratar dados de um universo, no caso todos os empregados em empresas com carteira assinada.
Aliás, eu pessoalmente nem chamaria o Caged de pesquisa, pois se trata de um cadastro, como bem expressa a sigla: Cadastro Geral de Empregados e Desempregados. O Caged, vinculado historicamente ao Ministério do Trabalho, funciona como um instrumento de acompanhamento e fiscalização de admissões e demissões de trabalhadores regidos pela CLT. Mensalmente as empresas cadastradas enviam ao Ministério do Trabalho as informações solicitadas.
O ministro Guedes não atenta ainda para o fato de que no Caged estão representados apenas cerca de 35% do total da população ocupada e 29% do total da força de trabalho, algo em torno de 30 mil trabalhadores com carteira assinada. Portanto, estão fora dessa categoria de privilegiados os trabalhadores caracterizados como informais, que já respondem por aproximadamente 40% - 34 milhões. E para esse contingente não há nenhuma ferramenta ou instrumento de acompanhamento e fiscalização.
Portanto, o que o Caged não mostra é o que de fato acontece nessa porção maior de ocupados na informalidade, que cresceu com a pandemia e normalmente toma mais tempo para reagir à ativação da economia. E a única forma de captar movimentos daquelas pessoas que estão fora da formalidade, sejam elas ocupadas, sejam desocupadas, é por meio da PNAD contínua. Trata-se de uma pesquisa feita em nível nacional por amostragem de domicílios, fazendo uso de técnicas das mais avançadas, compatível com padrões de países também mais avançados. E é por meio dessa pesquisa que se descobre que o país tem 14,6 milhões de desocupados. Além, é claro, dos 34 milhões que estão na informalidade.