Faz muito tempo que não se houve falar em inflação inercial, tida como um componente que, ao se comportar como estrutural, permanente, portanto, repassa automaticamente a inflação do passado recente para frente. Em fases crônicas produz o efeito “bola de neve”. Foi o que aconteceu até 1994, quando o Plano Real conseguiu bloquear a corrente inercial dos preços. Porém, agora com o salto dos preços em 2021, já alcançando dois dígitos, reascende-se o temor de seu retorno.
O surgimento do componente “força inercial” normalmente acontece quando a taxa de inflação atinge patamares mais elevados, normalmente caracterizados como fora de uma curva histórica mais comportada. Denomina-se inercial pelo fato de transformar-se em mecanismo intrínseco e autônomo do processo de aumento de preços. Características que conferem certas imunidades em relação aos esperados efeitos de políticas monetárias, como por exemplo, de restrições de liquidez pela via do aumento da taxa básica dos juros.
No âmbito das discussões técnicas, parece-nos ainda não haver consenso quanto à incidência de componente inercial na inflação brasileira. No entanto, só o fato de entrar na relação de eventos preocupantes, e em especial para o ano de 2022, já é motivo para entrar no radar de possibilidades. Não se deve desprezar, portanto, a perspectiva de termos uma parte da inflação de 2021, que chegou a 10,06%, sendo carregada para o ano seguinte.
Tecnicamente, o procedimento para se detectar a inflação inercial toma como base o comportamento dos chamados preços livres, também denominados de preços de produtos “tradables”, em contraposição ao preços administrados, como de combustíveis e energia. Estima-se que os tais preços livres aumentaram em 7,7% em 2021 e que parte dessa variação seja repassada para 2022.
O perigo de uma eventual “debandada” dos preços livres está no fato destes terem a capacidade, tal como “vírus”, de desenvolverem armaduras de proteção contra investidas dos bancos centrais em suas políticas monetárias voltadas para a obtenção de metas inflacionárias.
No caso do Brasil, o mercado já trabalha com a perspectiva de inflação acima da meta para o ano. Cenário que poderá se agravar com investidas do governo federal em ampliar o rombo fiscal. E a mais recente delas com o envio de PEC dos combustíveis, com potencial de gerar um déficit adicional de aproximadamente R$ 100 bilhões, com impactos sobre a inflação em “voo de galinha”, apenas ocorrendo no curto prazo.