Se na percepção da população prevalece o otimismo em relação a 2023, como mostrou pesquisa realizada pela Febraban (Federação Brasileira de Bancos) em dezembro, e referenciada no meu artigo da semana passada, não é bem essa a avaliação do que costumamos chamar de “mercado”.
Para este, não vemos o espírito do Natal a emular bom humor e consequentemente boas expectativas. Ao contrário, ainda em meio a incertezas, principalmente em relação ao encaminhamento da solução da equação fiscal, o consenso que tende a prevalecer é de que o país continuará refém de juros altos e suas já conhecidas e óbvias consequências.
O Brasil ostenta atualmente a maior taxa real de juros do mundo, que recai sobre a sua dívida bruta. Algo no entorno de 8%. Enquanto alguns países como os Estados Unidos estão praticando taxas negativas, mesmo com juro básico em alta para conter o processo inflacionário.
E aqui temos a perspectiva de manter ou mesmo até aumentar a taxa básica de juros, que já está em 13,75%, em 2023, a depender do comportamento da inflação. E nesse aspecto é importante lembrar que o Banco Central é agora independente na sua política monetária.
Sabemos que taxa de juro real alta é alegria de poucos e ao mesmo tempo sofrimento de muitos, pois de um lado atende o rentista, ou seja, quem tem dinheiro disponível, e de outro, onera quem precisa dele para consumir ou investir produtivamente. Ao que tudo indica, 2023 vai ser mais um ano bom, ou mesmo ótimo, para o rentista, porém, ruim para os demais, que são maioria. Para esses últimos, para além do juro pesará a inflação que ainda persistirá em meio às incertezas.
A dívida pública federal, em estado bruto, ou seja, sem considerar o crédito em reservas cambiais, atingiu a cifra de R$ 5,87 trilhões no final de novembro. Cerca de 75% do PIB. Um valor em si nem preocupante não fora o seu custo relativo. Este sim assusta. Em estimativa mais próxima, esse custo atingiu o patamar de 3,65% do PIB, equivalendo a uma média de 11% do estoque da dívida bruta total. Em números ultrapassaria a cifra de R$ 600 bilhões.
Ora, se é custo, é gasto. Então, a União estaria de alguma forma pagando em 2022 esse montante. Como isso é feito seria outra questão, pois sabemos que o rotineiro em situações de crise é pagar juros com mais dívida. Em outras palavras, os juros entram na rolagem da dívida. Mas o curioso é que o gasto com juros, que no caso equivale a mais de três vezes o custo da PEC da transição, não entra no já furado teto. Aliás, nunca entrou.
E ainda se do ponto de vista macroeconômico, tanto gasto com juros da dívida, quanto com a PEC da transição compõem a demanda agregada, ambos, de alguma forma, teriam algo a ver com a inflação, enquanto fonte de causalidade. Portanto, o receio e insegurança do “mercado” em relação aos impactos da “gastança” na estabilidade econômica não deveria focar mais na PEC da transição do que no custo da dívida pública. Até porque, e principalmente, a nossa inflação não é de demanda, mas sim decorrente de uma conjunção de fatores desestruturantes do lado da oferta: pandemia e guerra.
Mesmo assim, vale a torcida para um bom ano. Haverá sempre espaço para o otimismo.