Com a eleição de Milei, o povo argentino demonstrou que quer uma ruptura com o velho peronismo e a velha esquerda, ambas incrustradas na velha política, que deixou aquele país à beira do abismo e com 40% da população abaixo da linha da pobreza.
Para um país que, num passado longínquo, mais precisamente na primeira metade do século XX, chegou a ser incluído no seleto grupo de países desenvolvidos, traz o simbolismo de quem realmente fracassou. Se a situação chegou ao fundo do poço, não sabemos. O que sabemos é que, diante de um verdadeiro caos, venceu o candidato que se propôs mais caótico na sua previsibilidade.
Venceu a democracia. Esse é o lado bom e incontestável. Se muitos o tomam como louco, foi a sua loucura que prevaleceu sobre a previsibilidade da inércia do continuísmo. Prevaleceu a preferência pelo salto num vazio. Se este vazio vai ser preenchido ou não, dependerá de como o novo incumbente se comportará diante de imensos e quase incontornáveis desafios, e de como executará as suas inusitadas promessas, muitas delas inexequíveis.
Por mais “louco” que se pressuponha seja, com certeza não é daqueles que rasga dinheiro; talvez a moeda argentina, o peso, pois quer vê-la substituída pelo dólar. Mas uma coisa é fazer uso de retórica política eivada de populismo, e de libertarismo, anarcocapitalismo, que vai bem além do liberalismo, para vencer as eleições; outra coisa é o que moverá o novo mandatário ao sentar-se em sua nova “cadeira”. Pode ser que o ilusionismo dê lugar ao pragmatismo. É provavelmente o que a maioria dos argentinos esperaria.
Suas propostas de fechar o Banco Central e dolarizar a economia parece-nos descabidas e inexequíveis. Dolarizar significaria abdicar-se da soberania de se dispor de uma moeda fiduciária própria, não podendo decidir sobre juros, por exemplo, e sobre câmbio.
Quem emite dólar é o governo americano através do FED – Federal Reserve System, o Banco Central Americano. Além do fato de não se dispor de liquidez em dólar capaz de substituir a totalidade de pesos em circulação. Por outro lado, trata-se de medida que precisa passar pelo Congresso, onde Milei tem minoria, e bem reduzida.
Para o Brasil e para o Espírito Santo, a Argentina é um mercado importante. Nas exportações em 2022, num total de US$ 15,3 bilhões, apareceu na terceira posição para o Brasil e para o Espírito Santo (US$ 560 mi de um total de US$ 9,5 bi), dos quais 81% de minério de ferro. Já nas importações daquele país, que para o Brasil totalizaram US$ 13,1 bilhões, o Espírito Santo movimentou US$ 900 milhões, dos quais US$ 692 milhões em veículos (77% do total importado).
Interessa, portanto, aos dois países, mas principalmente às respectivas classes empresariais e as de trabalhadores, que esse comércio se amplie e se diversifique. É importante para o Brasil que a Argentina cresça e vice-versa. Da mesma forma para o Espírito Santo. Afinal, dinheiro não tem coloração ideológica.