Nos últimos dias, o assunto que tem dominado especialmente as redes de comunicação estruturadas, até por razões óbvias, pelo seus potenciais impactos disruptivos, tem sido a questão da utilização da inteligência artificial (AI) em várias dimensões e frentes do nosso dia a dia. Inclusive desbancando temas como guerras, conflitos e protestos, que vinham dominando os espaços.
Culminou, na semana passada, com a carta divulgada pelo Instituto Future of Life, assinada por proeminentes pesquisadores, influenciadores, empresários e investidores, dentre os quais Elon Musk e Yuval Noah Harari, este último autor de "Homo Sapiens", "Homo Deus" e "21 Lições para o Século XXI", recomendando que se procedesse uma trégua de seis meses em pesquisas na área.
Isso para permitir que se chegasse a uma avaliação mais próxima possível da amplitude e profundidade dos impactos da IA na vida das pessoas, nas sociedades, nos sistemas produtivos, no mundo do trabalho, da educação e na próprio processo civilizatório. Em síntese, em tudo o que cerca a vida, não somente dos humanos, é importante que se ressalte.
E, nesse aspecto, chamou-me a atenção um fato concreto do que pode representar a utilização da IA a leitura do artigo do colega Cassio Moro, neste mesmo espaço, sob o título "Mercado de Trabalho Inteligente ou trabalho inteligente sem mercado?”. Cassio, além de expor no artigo o que poderá representar no mercado de trabalho a disseminação do uso da IA, em efeito demonstrativo faz uso ele próprio dela, por meio de seu “amigo” virtual GPT-4, na redação do artigo, nos seus cinco últimos parágrafos. Confesso que, se não avisado, passaria batido.
O manifesto em si vale apenas como alerta, pois objetivamente não há como supor que ele reverterá em mudanças de ritmo e rumo dos acontecimentos. Servirá, isto sim, como chamamento de atenção para o que pode provocar em termos de transformações, predominantemente ruptivas, cujos limites e consequências, para o bem ou para o mal, não estão sob o alcance nem de quem está no “front”, muito menos de nós.
Estou aqui a imaginar que muito em breve estaremos a medir o QI de máquinas e não somente de humanos. E máquinas estarão, se já não estão, aprendendo com máquinas. E nós humanos possivelmente estaremos propensos a sofrer de um novo mal, a “preguiça” mental e intelectual, pois estaremos mais acomodados recorrendo às máquinas. Ou será que a “máquina” virtual da AI nos afetará e nos dominará também no nosso “ócio criativo”.
Preocupante, sem dúvida.