É de praxe nos finais de ano o mercado ensaiar consensos sobre o que virá no próximo. Em ambientes de maior normalidade, de horizontes mais claros, é sempre mais comum nos depararmos com expectativas mais favoráveis. Porém, não nos parece ser esse o cenário que se desenha, pelo menos até o momento. Fazendo uso de analogia bem simples, a economia mundial e a brasileira não sinalizam para o futuro mais próximo com faróis altos.
Olhando para a economia brasileira, o ano de 2023 surpreendeu. Basta lembrar que no final de 2022, naturalmente sob forte influência do ambiente político, havia o receio em torno do que poderia vir a ser o novo governo que se instalaria. Não se tratava de um receio do novo, mas sim do que o retorno do “velho” poderia conturbar ainda mais o ambiente político, num primeiro momento, e subsequentemente, o ambiente econômico.
Poucos, no mercado, se arriscavam a apontar números da economia que convergissem para uma taxa de crescimento acima de 1%. Na média dos consensos, as expectativas ficavam no entorno de 0,9%. Percentual que se manteve pelo menos nos dois primeiros meses do ano. Somente quando saiu o número do desempenho do PIB relativo ao primeiro semestre do ano é que as expectativas começaram a exercitar voos mais altos, mas ainda de forma comedida.
Afinal, permaneciam no campo das dúvidas medidas a serem tomadas e viabilizadas pelo novo incumbente, como a questão do novo arcabouço fiscal que substituiria a meta fiscal, que aliás já se encontrava detonada. Mesmo sob certas suspeitas por parte do mercado, que via nele potenciais fragilidades, o tal novo arcabouço fiscal serviu de ancoragem a expectativas mais otimistas. Não demorou e o mercado passou a projetar taxas de desempenho da economia que logo ultrapassariam a casa dos 2%. No momento, as indicações são de que fecharemos o ano no entorno de 3%.
Agora, o que esperar de 2024? No último relatório Focus, do Banco Central, as expectativas do mercado se mostram estabilizadas no patamar de 1,5%. A metade do que se prevê de crescimento para a economia mundial. Nada razoável. Sem dúvida trata-se de um cenário que reflete incertezas preponderantemente sobre a situação fiscal, vista como frágil para assegurar um crescimento mais sustentado. De todo modo o sentimento geral é de que será um ano difícil.
A notícia boa vem do Senado, que finalmente aprovou a PEC da reforma tributária, que mesmo eivada de exceções e privilégios, coisa que não é novidade em se tratando do nosso país, representa um grande avanço. Ajudará, sem dúvida, no destravamento da economia, abrindo espaços para investimentos. No entanto, ainda resta saber como fluirão as etapas subsequentes, inclusive a passagem novamente pela Câmara.
Pelo visto, déficit zero ou o correspondente a 0,5% do PIB não fará diferença. O mercado já precificou que déficit zero está fora da curva mais provável de tendência.