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Economia

Não há como escapar dos efeitos da guerra na Ucrânia

O nosso país sempre demonstrou um certo descuido em relação ao seu futuro. Talvez seja por isso que continuamos a acreditar que somos um país do futuro. Até quando, não sabemos

Publicado em 12 de Março de 2022 às 02:00

Públicado em 

12 mar 2022 às 02:00
Orlando Caliman

Colunista

Orlando Caliman

orlando.caliman@gmail.com

Aumento do gás de cozinha em puxado inflação
Deficiência do país, em certos momentos, como o atual de pressão internacional, pode afetar preço do botijão de gás-GLP Crédito: Pedro Ventura/ Agência Brasília
guerra protagonizada pela Rússia contra a Ucrânia, além causar estragos enormes, tanto em termos físicos, quando de perdas humanas de ambos os lados, estas irreparáveis, impõe sérias consequências à economia mundial e à geopolítica global. Não temos dúvida de que o mundo sairá diferente, independentemente do desfecho final do insano embate. E, nesse cenário, não há espaço para se imaginar que o nosso país possa escapar dos seus efeitos.
Podemos até separar aqueles impactos mais imediatos, que normalmente atingem o “bolso” das pessoas, daqueles que ainda não podemos vê-los de forma mais clara. Aqueles que nos tocam no bolso dizem respeito sobretudo à inflação. Se já a tínhamos no cenário como uma preocupação, agora mais ainda. E com ela também se vislumbra mais aperto monetário para contê-la, abrindo-se espaço para incrementos adicionais da taxa de juros básica. Uma trava ao crescimento além do esperado.
A questão é que por se tratar de uma pressão inflacionária, agora, predominantemente externa pouco ou quase nada valem os instrumentos e mecanismos internos para segurá-la. É o caso dos preços das commotidities, grandes responsáveis pela inflação global atual, com destaque para o petróleo e seus derivados, cujo preço básico deverá chegar próximo a 150 dólares o barril, ou até ultrapassar esse patamar caso o conflito se intensifique.
Mas não é só isso. Rupturas, sejam por estraves logísticos, sejam por choques de oferta nas bases de grandes e longas cadeias produtivas, acabam desembocando nas pontas finais de consumo de vasta gama de produtos e serviços. É assim que sentiremos seus efeitos, por exemplo, em praticamente tudo que comemos diariamente.
E no Brasil, por descaso ou desleixo, temos vulnerabilidades em setores estratégicos, que agora se mostram mais evidentes. Dentre esses, o setor de insumos agrícolas, que apresenta forte dependência no suprimento de fertilizantes, hoje concentrado em poucos países, com destaque da Rússia. Cerca de 25% da nossa demanda tem origem naquele país. No curto ou mesmo no médio prazo não será possível suprir essa lacuna. Os efeitos são óbvios: comprometimento de safra, custo de produção em alta, preços de alimentos mais altos na ponta. Em resumo: mais inflação.
O nosso país sempre demonstrou um certo descuido em relação ao seu futuro. Talvez seja por isso que continuamos a acreditar que somos um país do futuro. Até quando, não sabemos. Muito provavelmente poucos cidadãos brasileiros sabem, por exemplo, que por deficiências na sua infraestrutura, reinjetamos a metade do gás que extraímos nos nossos campos de exploração de petróleo e gás. E, curiosamente, importamos gás da Bolívia e GLP de outros países. Reinjetar significa retornar aos poços o que não conseguimos aproveitar. Essa deficiência em certos momentos, como o atual de pressão internacional, pode afetar preço do botijão de gás-GLP.
Em síntese, mesmo distantes, também estamos numa guerra.

Orlando Caliman

É economista. Analisa, aos sábados, o ambiente econômico do Estado e do país, apontando os desafios que precisam ser superados para o desenvolvimento e os exemplos de inovação tecnológica

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