O governo de Bolsonaro vai para a quarta troca do comando da Petrobras, sendo que esta última em cerca de um mês. Algo que é inédito. E, ao que tudo indica, isso por conta de sucessivas tentativas em interferir na definição dos preços da gasolina, do diesel e do gás, que por estarem atrelados aos preços praticados no mercado internacional vêm sofrendo altas sucessivas e fortes, e consequentemente provocando aumentos generalizados dos preços internos. Uma aventura populista cujo resultado é conhecido e certo, qual “bumerangue”.
Fica assim claro que o propósito inerente a esse movimento, sem dúvida carregada de cunho político eleitoral, ou para quem queira, eleitoreiro, é cortar, mesmo que temporariamente, o “cordão umbilical” que permite a fluidez automática de preços entre o mercado externo e interno. Aliás, um “modus operandi” já testado e de memória bem recente. Foi exatamente o que fez Dilma em 2014 para viabilizar a sua reeleição, num cenário que muito ou quase totalmente se assemelha ao atual.
As consequências lá atrás, todos nós sabemos, foram desastrosas. A Petrobrás amargou um prejuízo que segundo estimativas atingiu a cifra de R$ 100 bilhões, além de aumentar enormemente o seu endividamento. É até provável que tenha ajudado na sua reeleição, mas não só não conteve a inflação como jogou o país numa brutal recessão, da qual ainda sofremos as consequências.
Historicamente não se dispõe de nenhuma evidência de que a adoção de mecanismos de controle de preços tenha obtido resultados exitosos. Basta olharmos para nossos vizinhos Venezuela e Argentina. A Venezuela encontra-se praticamente quebrada e com inflação de três dígitos. Na Argentina, a inflação já beira os 53%, e em alta.
Alguém tem dúvidas sobre o que poderá acontecer caso se opte em segurar os preços de combustíveis e gás até as eleições em outubro? Fala-se internamente no governo em se dar uma trégua de três meses nos reajustes. Que, aliás, já se encontram represados no momento, principalmente em relação diesel. Ou ainda que alguém acredite que os preços desses produtos venham a ser reduzidos na ponta do consumo?
E é exatamente no diesel que se concentra o maior perigo, pois além do país precisar importar cerca de 30% para suprir suas necessidades, trata-se do componente que mexe fortemente com a logística que faz funcionar a economia. Essa dependência de suprimento externo agregada ao distanciamento entre preço interno e externo abre brecha para a possibilidade de redução de sua oferta geral. A Petrobras poderá até arcar com o prejuízo pelo fato de comprar mais caro lá fora e vender mais barato internamente, porém não as empresas privadas que operam hoje nesse mercado. Avaliação idêntica pode ser feita para o caso da gasolina.
Em suma, o que pode ser visto como solução simples de um problema complexo, pode retornar mais adiante, qual efeito “bumerangue”, em problema ainda maior, cujas consequências, já bem conhecidas de todos, recairão, como sempre, sobre a população menos protegida.