Se tomarmos como base as últimas pesquisas, agora já no período eleitoral, as indicações de tendência são de que a porção da população caracterizada como mais vulnerável e fragilizada economicamente, portanto, mais pobre, determinará o desfecho final do pleito em outubro. Esse contingente representa aproximadamente 54% da população brasileira e se distribui de forma fortemente assimétrica entre os Estados.
Certamente, em nenhuma eleição no passado tivemos escancarado tão fortemente, e de certa forma também tão escandalosamente, o problema da pobreza e sua consequência mais drástica e imediata, a fome, como agora. Como também, provavelmente, em nenhuma outra eleição do passado, a construção de um projeto de futuro para o país foi e está sendo tão preterida em relação a soluções tidas como passageiras e até ilusórias, para não se dizer populistas. Não que fossem de todo descabidas, mas, sim, desconectadas de uma proposta de projeto transformador para o país.
O que nos chama a atenção nem diz respeito tanto ao fato de se expor de forma tão acintosa a questão da desigualdade, mas sim a constatação de que esse “baita” problema do país não vem sendo colocado enquanto tema central nos debates como um desafio estrutural a ser enfrentado. Isso, pelo menos até o momento. Por enquanto está servindo apenas como foco das campanhas políticas. Do lado de Bolsonaro, espera-se que as benesses lhe favoreçam nas urnas, já do lado de Lula é de que a situação não melhore tanto a ponto de tirar-lhe votos dos mais vulneráveis, que no momento são mais cativos a ele.
As desigualdades espelhadas sobretudo em abissais distâncias entre ricos e pobres também são reveladas quando observadas entre Estados e regiões. Em seis Estados do Nordeste, por exemplo, cerca da metade das suas populações dependem hoje do Auxílio Brasil. Em contraste, em Santa Catarina apenas 8% são beneficiários do programa. No Espírito Santo, essa dependência é de 21%. Maranhão aparece no topo do ranking com 55%.
Por enquanto, segundo a última pesquisa Datafolha, Lula domina na porção da população mais vulnerável, com um percentual médio de indicação de voto no entorno de 53%, na faixa de renda até dois salários mínimos, e que corresponde a cerca de 54% do eleitorado; com uma vantagem que se aproxima de 20 pontos percentuais sobre o concorrente mais imediato. Já Bolsonaro sai na frente na porção designada pelo DataFolha como “amparados”, “seguros” e “superseguros”, colocando-se à frente de Lula em 10 pontos percentuais.
É importante lembrar que pesquisas mostram intenções de votos capturadas em determinado ponto na linha do tempo, refletindo contextos temporais específicos, que se repetidas no curso temporal indicam tendências. Nesse aspecto, se tomarmos como referência o que nos mostram as pesquisas até agora publicadas, as indicações são de que será a pobreza, como expressão mais contundente e concreta das desigualdades, o fator crítico a definir o novo mandatário do país. Infelizmente, mais como ativo de campanha política do que pauta de debate em torno de políticas inseridas em projeto de futuro que a erradiquem ou pelo menos a minimizem.