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Brasil

O impacto da política monetária sob pressão

Uma política monetária mais condescendente poderia ser até possível e exequível desde que contando-se com um razoável e segura ancoragem fiscal

Publicado em 11 de Fevereiro de 2023 às 00:15

Públicado em 

11 fev 2023 às 00:15
Orlando Caliman

Colunista

Orlando Caliman

orlando.caliman@gmail.com

insistência e a intermitência das falas do Lula criticando o Banco Central em relação à fixação da taxa Selic, mantendo-a no patamar de 13,75% e indicando a tendência em mantê-la elevada por tempo mais longo do que se esperaria, sem dúvida, põem pressão ainda maior sobre as expectativas de inflação. Se a pretensão da crítica é forçar uma queda da Selic, na realidade o efeito tende a ser exatamente o oposto: inflação mais alta requererá uma Selic também mais alta.
Retórica ou não, o certo é que essas falas de Lula acabam tumultuando o já fluido e inseguro horizonte de expectativas. E pelo que bem sabemos, são as expectativas que orientam as decisões no dia a dia do mercado e também das pessoas quanto a questões de natureza econômica. Nesta semana, por exemplo, o mercado já registrou expectativas de inflação e juros em alta e o ambiente em geral acabou pressionando o dólar para cima. Todos esses movimentos funcionam como inibidores do crescimento econômico.
A taxa Selic é alta? Sem dúvida, é extraordinariamente elevada, principalmente tendo em vista o que gera de ganho real, que é fantástico, aos rentistas, e também seguro. O Brasil é hoje o país com maior taxa de juro real do planeta terra. Uma taxa tão convidativa que deixa muitos empresários na dúvida na hora de decidir colocar seu dinheiro valer-se de financiamentos para suportar seus investimentos produtivos. Ser rentista tornou-se mais confortável do que o risco da economia real.
Esse ataque de Lula à Selic, que naturalmente bate no Banco Central, e acabou personalizada no seu presidente, Roberto Campos Neto, é bom lembrar, tem início com uma sua fala de contestação da meta de inflação. Segundo ele, a meta definida pelo Banco Central estaria inclusive abaixo de taxas de inflação observadas em países desenvolvidos como o próprio Estados Unidos e Alemanha. O que não se justificaria para o caso do Brasil, segundo ele. Era a sinalização para se chegar à Selic, ao Banco Central e agora ao seu presidente, que fica no cargo até 2024.
Percebe-se no governo, especialmente na ala mais à esquerda, que há quem defenda uma meta de inflação mais elevada. O que por consequência demandaria uma política monetária mais condescendente. Que está dificultada no momento pela condição de autonomia do Banco Central.
Uma política monetária mais condescendente poderia ser até possível e exequível desde que contando-se com um razoável e segura ancoragem fiscal. No entanto, a possibilidade de termos uma combinação do furo do teto de gastos com o furo da meta da inflação poderia levar a economia a uma condição simplesmente explosiva.

Orlando Caliman

É economista. Analisa, aos sábados, o ambiente econômico do Estado e do país, apontando os desafios que precisam ser superados para o desenvolvimento e os exemplos de inovação tecnológica

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