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Economia

O que o resultado do PIB capixaba não mostra

O quadro de percepções muda significativamente quando se altera o ângulo de visão e de análise do PIB, passando-se a observá-lo pela ótica da renda, que é por onde se vê para onde se destinam os fluxos de remuneração no processo produtivo anual

Publicado em 20 de Novembro de 2021 às 02:00

Públicado em 

20 nov 2021 às 02:00
Orlando Caliman

Colunista

Orlando Caliman

orlando.caliman@gmail.com

IJSN publicou na semana passada dados do PIB capixaba referentes ao ano de 2019. O valor estimado – R$ 137 bilhões - de certa forma decepcionou, pois se apresentou abaixo do que se previa tomando-se como base as estimativas feitas trimestralmente – PIB trimestral pelo IBGE, juntamente com o IJSN.
Ou seja, manteve-se a queda, porém maior, de 3,8%, ante 2,2% da estimativa anterior. Em termos nominais, praticamente não se moveu, comparado com 2018. Subiu apenas 0,24%, mas com a retirada do efeito inflação – deflator do produto – efetivamente caiu em valor.
Mas, como já chamei a atenção por diversas vezes neste mesmo espaço, temos que ter cuidados adicionais na leitura desses números. E aqui estou me referindo especificamente ao Espírito Santo, pelas particularidades e peculiaridades que já lhes configuram como estruturais. Ressalto o peso das chamadas commodities industriais. Sobretudo as pertencentes ao grupo de atividades de extração mineral: minério de ferro e petróleo. Esse grupo já chegou a representar cerca de 26% do PIB capixaba (em 2011).
Uma coisa é olharmos o PIB pela ótica da produção, que é por onde vamos ver, por exemplo, que o Valor Adicionado (PIB exceto Impostos) do segmento extrativa mineral foi reduzido, em termos reais, em 29%; da indústria de transformação (-8,8%); e da agricultura (-4,4%). Na direção oposta aparecem a indústria da construção, com 6% de crescimento; o comércio, que tem peso significativo (15%), com 2,2%; atividades de alojamento e alimentação, com 6,6%.
O quadro de percepções muda significativamente quando se altera o ângulo de visão e de análise do PIB, passando-se a observá-lo pela ótica da renda, que é por onde se vê para onde se destinam os fluxos de remuneração no processo produtivo anual – massa de remuneração - dos fatores de produção envolvidos.
A massa salarial, que corresponde a 31% do PIB, por exemplo, cresceu 5% em termos nominais entre 2018 e 2019; impostos (18% de participação), 8,2% e Excedente Operacional Bruto e Remuneração Mista, com participação de 43%, grupo representado por lucros e remuneração de proprietários de empresas e seus dirigentes, menos 6,6%.
O que isso significa? Como por princípio os valores totais correspondentes às duas óticas se equivalem, fica claro que o impacto da queda do PIB visto pela ótica da produção afeta proporcionalmente mais a parcela referente ao excedente operacional (lucros e remuneração mista) do que a massa salarial e impostos (que equivale a 54% do PIB, ótica da renda). Essa avaliação é também válida para o volume de emprego, que aliás cresceu 3% em 2019.
Isso nos mostra uma característica bem peculiar à economia capixaba, que é a existência de uma certa inelasticidade intrínseca da massa de renda e emprego em relação às oscilações conjunturais da produção de commodities. Por outro lado, a elasticidade – flexibilidade – fica por conta do componente representado pelo excedente operacional, incluindo-se aí os lucros.
Prefiro ver o PIB capixaba pela ótica da renda!

Orlando Caliman

É economista. Analisa, aos sábados, o ambiente econômico do Estado e do país, apontando os desafios que precisam ser superados para o desenvolvimento e os exemplos de inovação tecnológica

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