Antoni Gaudí foi o mestre e arquiteto espanhol que projetou e praticamente construiu a magnífica obra da igreja da Sagrada Família em Barcelona. Gaudí assume a obra em 1883, um ano após o seu efetivo início. Por 43 anos, dedicou-se completamente à missão de inaugurá-la, inclusive fazendo dela o seu lar. Evento que acabou não acontecendo em decorrência de sua morte trágica em um acidente de atropelamento, em 1926. Ainda inacabada, mas com obras atualmente em curso, autoridades da Catalunha projetam, finalmente, a sua inauguração por ocasião do centenário da morte do seu autor, em 2026.
Mas o que teria a ver a história da BR 262 com a Igreja Sagrada Família de Gaudí? Meramente uma questão de natureza temporal. Até porque de Gaudí temos uma obra viva, esplêndida, um monumento de valor universal. O curioso é que a lembrança de Gaudí me veio à tona exatamente quando vi e ouvi o anúncio da concessão da BR 262 pelo governo federal, estipulando o prazo para a conclusão da duplicação em 30 anos. E, ainda, sem um Gaudí para transformá-la em uma obra, senão monumental, no mínimo, decente.
A história da BR 262 tem início em 1952. Foi batizada como BR 31, tendo como ponto de partida a capital mineira e tendo como primeiro trajeto em direção a Vitória. O trecho até João Monlevade (MG) foi inaugurado em 1960. No entanto, a mudança de numeração ocorre em 1964, sendo foi projetada para ligar Vitória (ES) a Corumbá, no Mato Grosso do Sul, numa extensão de 2.213 km. A inauguração no seu trajeto total vem a ocorrer em 1969, um ano após ter completado o trajeto Vitória – Belo Horizonte.
Para o Espírito Santo, trata-se de um eixo logístico extremamente estratégico de conexão com o interior do país, mas especialmente com Minas Gerais e Goiás. Desde a sua inauguração, em 1968, praticamente não recebeu nenhum investimento significativo. Pensando bem, estamos falando aqui de um trajetória de aproximadamente 70 anos desde o seu início. E de 50 anos de seu término. E o que dispomos no momento é de uma rodovia deteriorada, coberta de remendos e, de certa forma, também sem recursos.
Imaginar que ainda teremos pela frente um longo caminho para vê-la duplicada soa-nos dramaticamente preocupante e, ao mesmo tempo, inacreditável.