A associação que se faz hoje entre mudanças tecnológicas e desocupação da força de trabalho, principalmente em decorrência da robotização de processos industriais, não é novidade na história econômica mundial. É o que comprova a própria história de mudanças ocorridas na indústria de transformação nos últimos 200 anos. Nos vários momentos em que ocorreram ondas transformadoras, as previsões e temores iniciais não somente se dissiparam como acabaram fortalecendo teses opostas.
Aliás, o grande economista John Maynard Keynes chegou a afirmar, e isso em plena deflagração da maior crise do capitalismo nos anos 30 do século passado, que novas tecnologias, em especial aquelas dotadas de grande poder de transformação, ao contrário do que se imaginaria aumentariam o tempo de lazer e também o emprego no longo prazo. Numa leitura mais atual, agora do sociólogo italiano Domenico De Masi, novas tecnologias tenderiam a abrir espaços para o tempo livre, para a criatividade e para o “ócio criativo”.
Tudo bem que esse processo de robotização que acontece agora conta com o aporte de fantásticos avanços que ocorrem por conta de novas tecnologias de informação e comunicação, sobretudo envolvendo internet, inteligência artificial, máquinas que aprendem e um infindável número de novidades. São avanços que produzem também efeitos transformadores positivos, com criação de novos e mais sofisticados postos de trabalho humano em outros campos.
Evidências empíricas mais recentes, portanto já num ambiente de “nova revolução”, que aliás não é somente industrial, tem demonstrado que países que mais intensamente passaram a fazer uso de robôs em seus processos industriais mantiveram taxas de ocupação da força de trabalho elevadas.
Segundo dados recentes levantados pela Unctad (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento), o caso que mais evidencia essa associação positiva entre robotização e taxa de ocupação é o da Coreia do Sul. Esse país aparece no topo da lista dos que mais intensamente adotaram robôs na indústria de transformação. Foram cerca de 370 robôs para cada dez mil empregados no setor. Nos Estados Unidos, esse indicador chega a 150. O Japão é o segundo da lista, com 320. A questão é que países que aparecem no topo da lista da robotização não constam na lista daqueles que apresentam problemas crônicos de emprego.
No Brasil, esse indicador não chega nem a dez, aparecendo atrás de Argentina e México. Também bem longe dos seus principais concorrentes no mercado mundial. A lição que devemos tirar dessas evidências é a de que sem uma verdadeira revolução na educação não lograremos êxito em termos de competitividade e desenvolvimento econômico e social.
* Orlando Caliman é economista