A literatura caracterizada como distópica nunca foi tão lembrada como em tempos atuais. E a pandemia parece funcionar como um forte fator de aceleração desse processo de lembrança ao ajudar a expor, desvendar e desvelar as entranhas de um mundo em ebulição. Movimentos e transformações rápidas levadas a limites exponenciais e ao mesmo tempo carregadas de poderes disruptivos tendem a desestabilizar e desorganizar os referenciais de vivência e convivência das pessoas, de coletivos e da sociedade; e inclusive das democracias. Bem próprio de estágios de transição civilizatória.
Tudo que nos parecia sólido de repente se “desmancha no ar”. Ou ainda, reportando-nos ao sociólogo Zygmunt Bauman - “Modernidade Líquida”-, o mundo se torna mais líquido e mais instável. De uma forma geral, as pessoas se sentem meio que perdidas em seus mapas de navegação ao não sentirem solidez nas suas passadas nas trajetórias de seus sonhos. Perdidas, desencaixadas e fragilizadas acabam se tornando prezas fáceis de supostas âncoras salvadoras, muitas vezes camufladas em seus propósitos, que lhes são ofertadas cada vez mais em profusão.
Trata-se de um ambiente bem propício ao tribalismo, onde as pessoas buscam os iguais. E as redes sociais e a internet ao mesmo tempo que facilitam as vidas das pessoas e as aproximam, também as distanciam, as antagonizam e as dispersam. É onde também acabam se transformando em uma espécie da “matéria prima” digital nas mãos das grandes plataformas digitais, que com seus “cavalo de troia” e respectivos algoritmos escaneiam as interações digitais das pessoas.
Na verdade, o que acontece é que as vidas digitais das pessoas se transformam em matéria prima, que transformada em produtos, estes são objeto de venda por parte das grandes plataformas digitais. Nesse aspecto, o livre arbítrio e a individualidade das pessoas são violados. Em outras palavras, somos escaneados, vigiados e de certa forma vendidos enquanto fonte de informação. Algo que nos faz lembrar George Orwell no seu livro 1984. A professora Shoshana Zuboff, da Universidade de Harvard, chama isso de “capitalismo de vigilância”, em entrevista no Valor de 05/03.
*Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta