Olhando para trás, o ano de 2023 não foi de todo ruim. Aliás, em certos aspectos, e digo especialmente em relação à economia, foi um ano bom. De forma isolada, é importante que se ressalte. Acima das expectativas, que são frutos do tempo. Mas, ao final, deixa um gostinho de estarmos diante do simbolismo que nos transmite a figura de um copo meio cheio.
Isso porque no seu desfecho já são sentidos os efeitos do que poderíamos chamar de processo estrutural de “desgaste de materiais”, que funcionam como fatores inibidores do crescimento. Ou seja, um ano relativamente bom necessariamente não garante um sequenciamento no mesmo nível ou melhor.
Temos ainda enraizado o hábito de projetarmos o futuro mais próximo espelhando-nos no passado mais recente. Há, nesse caso, alguma chance de cairmos na armadilha da profecia autorrealizável, que é quando o “estado” de consenso prévio acaba virando realidade.
Keynes, um dos maiores economistas do século XX, chamava isso de “efeito manada” ou "efeito massa”. Se a maioria pensa e age com base na perspectiva de que tudo vai piorar, a probabilidade é razoavelmente grande de que o que se projetava de fato possa acontecer.
Nos últimos 20 anos a economia brasileira praticamente patinou, executando pequenos e fortuitos voos de galinha. Cresceu algo em torno de 1% ao ano. Bem abaixo da média mundial que sempre se portou acima de 3%. Não é preciso ter bola de cristal para descobrirmos que fatores estruturais têm funcionado como obstrutores do processo de crescimento. Fatores estes que alimentam e sustentam o que podemos denominar de armadilhas: a armadilha da renda média e a armadilha da baixa complexidade econômica.
Enquanto a primeira, a da renda média, nos mantém, ou seja, nos aprisiona, em níveis de produtividade bem abaixo de países desenvolvidos e bem aquém do potencial que o país detém, a segunda, a baixa complexidade econômica, é alimentada pela primeira. Temos aí em operação um verdadeiro circuito “desvirtuoso”: a baixa complexidade econômica nos limita na competitividade que por sua vez nos impede de fazer crescer a renda média do brasileiro.
Não há segredo para se sair dessa “arapuca” de duas armadilhas. Países como a Coreia do Sul conseguiram desarmar as suas arapucas. E o que fizeram, além de reformas estruturais? Educação. E não se trata de qualquer educação e sim uma educação conectada ao mundo do trabalho, da ciência, da tecnologia e da inovação, e de uma sociedade em movimentos rápidos.
E aí, voltando ao nosso Brasil, vamos concluir que não é com essa educação que estamos oferecendo às crianças e aos jovens brasileiros que vamos sair dessa “arapuca” de duas armadilhas. Estão aí a nos alertar os resultados do Pisa – Programa Internacional de Avaliação de Estudantes, divulgados nesta semana. Nas três dimensões avaliadas, matemática, leitura e ciências, o Brasil vem caindo desde 2012, mantendo-se no entorno da sexagésima posição no ranking.
Ótimo mesmo será o ano que obtivermos ótimos resultados no Pisa. O futuro nos será mais promissor.