Chamou-me a atenção, que leio como sinal de alerta, a fala do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, em evento realizado em Vitória, referindo-se a possíveis desdobramentos de aumento do risco fiscal. Assim se expressou: “É impossível a qualquer banco central segurar expectativas com fiscal descontrolado”.
Ao que nos parece, mais do que um alerta, Campos Neto antecipa um cenário nada alvissareiro principalmente para o próximo ano. Quando menciona expectativas, ele quer indicar a dificuldade que terá em sustentar uma ancoragem, pela via de política monetária, minimamente crível para o mercado, em meio a constantes, para não dizer até ferozes, investidas que já estão conduzindo o país ao descontrole nos gastos públicos.
A perspectiva de aumento do descontrole nos gastos públicos, em grande medida cada vez mais insuflado pela antecipação do embate eleitoral no próximo ano, faz emergir no horizonte, também com mais força, o risco fiscal. E tudo o que dele possa derivar em termos de consequências possíveis, como o déficit e a dívida pública em alta, inflação fora do controle, juros aumentados, salários com menos poder de compra e outras coisas mais, naturalmente, todas não desejáveis.
Esse cenário, mesmo que ainda não totalmente confirmado, já contamina sobretudo expectativas para 2022. Mas também podemos perceber impactos negativos que poderão se aprofundar neste segundo semestre. Refiro-me ao comportamento de maior cautela em decisões de investimentos produtivos por parte das empresas. Que é onde as expectativas desempenham papel crucial. Praticamente todas as projeções do mercado para a economia no próximo anos estão sendo corrigidas para baixo. O que se esperaria chegasse ao patamar de 2,5%, hoje já há quem aposte em 1,5%.
O maior perigo, sem dúvida, está na inflação, pois para domá-la o governo terá que elevar o juro básico representado pela Selic, que hoje está em 5,25%, mas que poderá ultrapassar os 7% ainda neste ano. O banco Credit Suisse estima que cada ponto percentual de aumento da inflação acrescenta cerca de R$ 14 bilhões no gasto com o juro sobre o estoque da dívida pública.
Mas há um componente na equação do PIB, ou seja, da riqueza total produzida no país, que compõe o lado da demanda, mais propenso a sofrer os efeitos da inflação. Trata-se do componente consumo, normalmente também chamado de consumo das famílias. Esse componente chega a responder por cerca de 65% do PIB e funciona como motor da economia. É também a parte mais susceptível de sofrer perda de poder de compra quando a inflação está em alta. E o prejuízo recai sempre com mais força sobre o contingente de pessoas de menor renda, que é também o mais afetado pelo desemprego.