Eu tenho dito por várias vezes que a leitura do PIB do Espírito Santo requer cuidados. Isso pelas suas características estruturais, que conta com a forte presença de mercadorias classificadas como commodities. E o que diferencia estas das demais mercadorias é a formação de seus preços, que são determinados pelo lado da demanda. São tipicamente “price takers” – tomadores de preços ou também “flex price” – preços flexíveis. Os seus preços apresentam grandes oscilações, acompanhando as macros variáveis da geopolítica e da geoeconomia. É o que aconteceu em 2020 e 2021.
É essa característica que me leva sempre a buscar analisar os dados do PIB, que são periodicamente divulgados pelo IJSN e IBGE, sob diferentes olhares. E, nesse aspecto, apetece-me mais o olhar sob a ótica da renda, pois é a partir dela que podemos extrair “insights” mais assertivos acerca do como se dá a dinâmica interna no processo de geração e distribuição da riqueza. E por via de consequência também do gasto.
O IJSN divulgou neste mês os dados relativos ao PIB de 2021 sob a ótica da produção e da renda. Ainda não disponibilizou dados sob a ótica dos gastos, que mostraria para onde estaria indo a massa total de renda gerada, como por exemplo, para gastos das famílias, dos governos, investimentos e outras categorias mais. O PIB de 2021 atingiu R$ 186,3 bilhões. Valor que contrasta como o observado em 2020, ano da pandemia da Covid-19, de R$ 138,4 bilhões.
Ao compararmos esses dois valores já podemos identificar o efeito “commodities”. Nos cálculos do IJSN/IBGE o PIB de 2021 apresentou um crescimento real, ou seja, tirado o efeito inflação, de 6%. Um incremento significativo, mas que precisa ser relativizado pois toma como base uma queda de 4,4% em 2020. Mas o que chama a atenção é que em termos nominais o PIB cresceu 35%. Deduz-se, portanto, que tivemos um efeito preço de cerca de 27%. Que seria, no caso, o valor do deflator médio utilizado.
E de onde vem esse efeito preço? Como a maioria das commodities estão concentradas no setor extrativa mineral – minério e petróleo - fica mais fácil identificarmos a origem do efeito. Em termos nominais, ou seja, a preços correntes, o valor do PIB da extrativa mineral apresentou um aumento de 154%. Ora, se em valores reais essa atividade sofreu uma queda de 10,1, como consta na planilha divulgada, na média os preços chegaram a 182%. De fato, somente a pelota de minério de ferro teve um incremento de preços entre 2020 e 2021 de 372% em dólar.
Mas o que mais nos interessa mesmo é saber o que aconteceu com o total da massa de renda gerada. Essa, que se destinou predominantemente a salários, cresceu 14%, ante 35% de crescimento nominal do PIB, e de 36% do Valor Adicionado Bruto. Essa diferença fez com que a participação da massa de renda dos salários caísse de 38% para 32% do PIB. Em contrapartida, a participação do excedente operacional bruto – lucros, dividendos etc. – variou de 43% para 50%.