A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD/IBGE) indica que em 2022 mais da metade da população brasileira (55,9%) era composta por pessoas com declaração de cor ou raça preta e parda. Esse grupo também é caracterizado como negros pelas pesquisas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Apesar dos negros representarem quase 60% das pessoas residentes do país, tal grupo demográfico apresenta alguns dos piores indicadores socioeconômicos. As estatísticas do mercado de trabalho demonstram isso. De acordo com os dados de 2022 da PNAD/IBGE, a renda média dos brancos é 40% superior do que o rendimento dos negros. Os brancos são maioria na ocupação de cargos gerenciais (69%), enquanto os negros são minoria (29%). A informalidade no trabalho é maior para os pretos (43%) e pardos (47%) do que para os brancos (33%). A taxa de desemprego das pessoas brancas (11,3%) é inferior às taxas dos pretos (16,5%) e pardos (16,2%), segundo informações do IBGE de 2021.
A Constituição Cidadã, que no último dia 5 de outubro completou 35 anos, lançou luz para um conjunto de direitos essenciais para grupos étnico-raciais vulneráveis. Todavia, esses direitos não foram suficientes para garantir uma transformação na promoção da equidade racial.
Por mais que o termo equidade no senso comum possa ser tomado como sinônimo de igualdade, insta salientar que a equidade considera as características específicas de um determinado indivíduo ou coletivo. Em sua fundamentação, a equidade designa a busca em atender as necessidades diferenciadas de uma pessoa ou grupo com características particulares, garantindo que todos alcancem condições e oportunidades de forma justa para se desenvolverem, independentemente de sua cor ou raça.
Nas últimas décadas ocorreram avanços no caminho da equidade racial, porém ainda tímidos e lentos frente aos gigantescos desafios das desigualdades socioeconômicas e do racismo, que se incrustou no decorrer da longa história escravocrata do Brasil e se mostra, geralmente, banalizado no cotidiano.
Segundo a recente pesquisa do Instituto Identidades do Brasil (ID_BR), uma organização sem fins lucrativos, o mercado de trabalho do país somente se tornará menos desigual, na perspectiva étnico-racial, daqui a 167 anos. O estudo do ID_BR assinala que caso não ocorra avanços em políticas públicas e as empresas privadas não impulsionem estratégias para reduzir tal desigualdade, as oportunidades entre negros e brancos vão se equilibrar no mercado de trabalho apenas no ano de 2190. Contradições e injustiças sociais que deixarão marcados o atual e o próximo século.
Dessa forma, torna-se urgente a potencialização de políticas públicas de inclusão, ações afirmativas e estratégias de equidade racial e de fortalecimento da cultura africana e afro-brasileira. Essa potencialização deve ser uma responsabilidade abraçada conjuntamente pelo poder público, empresas, setor produtivo, terceiro setor e sociedade. Quem sabe assim não precisaremos esperar 167 anos para ver um Brasil com equidade étnico-racial no mercado de trabalho, educação, saúde, habitação e outras áreas essenciais.