Enquanto o Brasil enfrenta o grave problema do desequilíbrio das contas públicas e a população se encontra cada vez mais exaurida pelo custo de vida, Brasília nos brinda com mais um espetáculo de irresponsabilidade. Na calada da noite da última quinta-feira (26), o Senado e a Câmara Federal aprovaram, em tempo recorde e agilidade invejável, o aumento do número de deputados federais de 513 para 531. Sim, em plena era da narrativa parlamentar da austeridade e ajuste fiscal, decidiram que precisamos de mais políticos pagos com dinheiro público.
Como de costume, vamos analisar alguns números? Os Estados Unidos, com mais de 340 milhões de habitantes, têm 435 deputados federais. O Brasil, com pouco mais de 210 milhões de pessoas, já tinha 513 e agora passará a ter 531 parlamentares na Câmara Federal. Isso mesmo! Teremos quase 100 a mais do que a maior potência econômica do mundo, que tem uma população 60% maior que a nossa. É ou não é um escárnio?
A justificativa é uma "readequação proporcional", baseada em dados do Censo de 2022. Mas sejamos sinceros, o que o povo brasileiro esperava era um movimento inverso. Era hora de discutir a redução, não o aumento do número de parlamentares. O modelo atual já é dispendioso, ineficiente e muitas vezes desconectado da realidade da população.
A máquina pública está inchada e a confiança da sociedade no Congresso está em níveis alarmantemente baixos. Qual sinal os parlamentares acham que estão enviando ao povo com essa decisão?
Além da afronta simbólica, há o impacto financeiro. O aumento pode gerar um gasto extra superior a R$ 100 milhões por ano, uma vez considerado o efeito bola de neve, a saber, mais assessores, mais cotas parlamentares, mais verbas de gabinete, mais carros, mais diárias, mais auxílio-moradia, mais tudo nos legislativos federal e estaduais.
E olha que não estamos considerando as cifras obscuras, como as famigeradas “emendas pix”. No final das contas, é uma verdadeira avalanche de gasto público um país que deveria estar lutando para conter desperdícios e fortalecer áreas essenciais como saúde, educação, segurança e ciência.
É inadmissível que, num cenário de desequilíbrio fiscal, com o governo federal tentando cortar despesas e aumentar receitas, o Congresso caminhe em sentido oposto, aumentando privilégios e ignorando a realidade das ruas. Como justificar isso diante de milhões de brasileiros vivendo abaixo das linhas da pobreza e miséria, em filas do SUS, sem creche, sem segurança e desempregados?
Precisamos urgentemente de uma reforma política que, em vez de alimentar castas privilegiadas, enxugue o Estado e o torne mais eficiente, representativo e conectado ao cidadão comum. Aumentar o número de deputados não é modernizar a democracia, é aprofundar o abismo entre representantes e representados.
A população não suporta mais bancar esse custo. Chega de privilégios. Chega de abusos. O Brasil não precisa de mais deputados, precisa sim de mais responsabilidade e políticos comprometidos com os interesses da população.