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Economia

O tabuleiro do tarifaço: o que não fazer agora?

O xadrez geopolítico é complexo e a melhor jogada, muitas vezes, é aquela que evita o imediato movimento óbvio e prioriza a estratégia bem planejada. O Brasil tem a chance de mostrar maturidade diplomática e pragmatismo econômico.

Publicado em 30 de Julho de 2025 às 03:00

Públicado em 

30 jul 2025 às 03:00
Pablo Lira

Colunista

Pablo Lira

pabloslira@gmail.com

A imposição de tarifas por parte do governo Trump sobre os produtos brasileiros provavelmente será colocada em prática no próximo dia 1º de agosto. A retórica protecionista que ressurge no tabuleiro global ganha agora contornos mais agudos e, para o Brasil, exige uma reflexão estratégica sobre o que, de fato, não devemos fazer agora.
Ao observar as movimentações das últimas semanas, constatamos que as tarifas de 50% sobre produtos brasileiros parecem inevitáveis no curto prazo. A motivação transcende a lógica econômica, enraizando-se em um emaranhado político-ideológico. Insta salientar que a economia norte-americana ostenta superávit no comércio com o Brasil. É infundada a alegação de Trump sobre a desvantagem comercial dos Estados Unidos, ou seja, não encontra respaldo em evidências científicas e no mundo dos fatos, mais uma bravata ideológica.
Existe probabilidade de uma melhora na conjuntura ao longo dos próximos meses. Em um primeiro momento, o aumento das tarifas vai produzir um tsunami na economia e mercados brasileiros, entretanto também vai gerar impactos negativos na economia dos Estados Unidos, vai pressionar a inflação naquele país e bater no bolso dos empresários e dos consumidores norte-americanos. Uma grande onda de insatisfação na economia interna tende a retornar contra o governo Trump, é questão de tempo.
Do lado de cá, no hemisfério sul, no território brasileiro, a primeira e mais crucial lição sobre o que não fazer é não retaliar de forma impensada. A tentação de responder na mesma moeda, de elevar nossas próprias tarifas e de entrar em uma guerra comercial aberta, é grande. Contudo, tal atitude seria um grande erro cometido pelo governo brasileiro. Uma retaliação generalizada apenas solidificaria a narrativa de Trump e fecharia as portas para futuras negociações. O Brasil tem a chance de mostrar maturidade diplomática e pragmatismo econômico.
De acordo com Samuel Pessôa, em artigo publicado na Folha de São Paulo no último dia 26 de julho, a bola está com Trump e a melhor resposta do governo federal é a sobriedade. Se não elevarmos as tarifas sobre os bens importados dos Estados Unidos, o choque tarifário de Trump sobre nós pode, paradoxalmente, ter um efeito desinflacionário no Brasil.
Parte das mercadorias que exportamos para a economia norte-americana poderá ser redirecionada ao mercado doméstico, favorecendo assim a redução da pressão inflacionária por aqui. “O presidente Trump que decida até onde deseja ir na sua agressão ao Brasil”, pontuou Pessôa, que é pesquisador do BTG Pactual e do FGV IBRE e doutor em economia.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, durante o anúncio das tarifas recíprocas para diversos países
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, durante o anúncio das tarifas recíprocas para diversos países Crédito: MARK SCHIEFELBEIN/AP
O que fazer, então? A resposta está em uma combinação de resiliência, diversificação e diplomacia estratégica. O momento exige que as lideranças públicas e empresariais brasileiras articulem com parceiros nos Estados Unidos, como importadores e empresas com investimentos no Brasil, que também serão prejudicados pelas tarifas.
E, talvez o mais importante, o que não fazer é ignorar a necessidade de diversificar a nossa balança comercial. Se cerca de 12% das exportações brasileiras vão para os EUA e 28% vão para a China, a imposição de tarifas por Trump deve acelerar um movimento planejado de busca por outros mercados. Fazer acontecer o acordo Mercosul-União Europeia (UE), a intensificação dos laços com países asiáticos, são caminhos que o Brasil já trilha e que devem ser reforçados.
Dessa forma, o tarifaço de Trump, embora preocupante, não deve ser o catalisador para reações impulsivas. O que não fazer é retaliar cegamente, polarizar internamente ou subestimar a natureza política da ofensiva do presidente dos Estados Unidos. O que fazer é agir com sobriedade, buscar o diálogo pragmático, fortalecer as relações com outros parceiros comerciais e, acima de tudo, manter a coesão nacional. O xadrez geopolítico é complexo e a melhor jogada, muitas vezes, é aquela que evita o imediato movimento óbvio e prioriza a estratégia bem planejada.

Pablo Lira

Pos-Doutor em Geografia, mestre em Arquitetura e Urbanismo (Ufes), pesquisador do IJSN e professor da Universidade Vila Velha (UVV). Escreve as quartas

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