Tem circulado nas redes sociais um vídeo no qual um indivíduo utiliza uma narrativa rasa e deturpada sobre o passaporte e as próprias vacinas contra a Covid-19. Definitivamente, o pedante vídeo não traz conteúdo da área da saúde. Ao invés disso, limita-se a uma opinião pessoal com viés ideológico e argumentos frágeis que tentam sustentar a ideia de que o passaporte vacinal se trata de um instrumento de “controle social do Estado sobre nosso direito de ir e vir, a nossa liberdade, o direito de escolha do cidadão”.
Delírios ideológicos à parte, no mundo real o direito de ir e vir à pessoa que optar por não se vacinar continua mantido. Contudo, essa pessoa fica sujeita a algumas restrições, pois as liberdades individuais não podem se sobrepor às regras e normas estabelecidas para o convívio social e a proteção da coletividade. Nenhum direito é absoluto!
O indivíduo que gravou o vídeo ignora completamente esse importante aspecto da vida em sociedade. Esquece que o interesse coletivo deve prosperar sobre o individual. Seria esse um desconhecimento do autor do vídeo ou uma omissão proposital para desinformar as pessoas?
A liberdade individual não deve prevalecer sobre as estratégias da saúde coletiva, especialmente em meio à mais grave crise sanitária dos últimos cem anos. A pandemia já tirou a vida de quase 6 milhões de pessoas no mundo. Aproximadamente 640 mil brasileiros morreram pela doença. Essa é uma pauta muito séria para que supostos gurus saiam por aí espalhando desinformação de forma irresponsável.
Essa triste estatística poderia ser ainda mais trágica se não fosse o avanço científico que possibilitou o desenvolvimento de vacinas contra a Covid-19. São imunizantes eficazes, devidamente testados e aprovados por agências de saúde de diversas nações. O objetivo dessas vacinas é mitigar a transmissão da doença e, sobretudo, diminuir os riscos dos infectados desenvolverem as formas mais graves e preservar vidas.
Ignorando esse aspecto trivial sobre as vacinas, o indivíduo do vídeo faz a seguinte afirmação estapafúrdia: “E lembrando um colega que me disse hoje que o passaporte nada mais é do que um documento oficial do Estado que te dá o direito de transmitir a doença”. Dá para perceber que o dito colega é um boçal que está tentando ideologicamente desmerecer a relevância do passaporte e das próprias vacinas.
Na verdade, o passaporte da vacina consiste em um instrumento constitucional, amparado juridicamente. Adotado por inúmeros países e vários Estados e cidades brasileiras, busca ampliar a cobertura vacinal, bem como reforçar a necessidade das pessoas manterem em dia a imunização contra a Covid-19, o que é fundamental para superarmos a pandemia uma vez considerado o propósito das vacinas, ou seja, mitigar a transmissão e preservar vidas.
As evidências científicas e autoridades sanitárias reforçam a importância do passaporte e das próprias vacinas. Além disso, os dados são contundentes. No Espírito Santo, por exemplo, uma análise comparativa simples deixa isso claro. Em janeiro de 2021, quando a vacinação estava apenas iniciando nos grupos prioritários, o ES computou 837 óbitos por Covid-19. Passado um ano, com a vacinação completa da população superando o patamar dos 70%, o Estado registrou 256 óbitos pela doença, um número 3 vezes menor em relação a janeiro de 2021.
Vale ressaltar que vivemos a quarta onda da pandemia, impulsionada pela variante Ômicron que é muito mais transmissível. Se não fosse o advento da vacina, o número de casos provavelmente seria ainda maior e os óbitos estariam apresentando uma tendência de crescimento exponencial.
E ainda tem gente contrária às vacinas e ao passaporte vacinal. O pior de tudo: ficam espalhando desinformações. Devemos nos unir em uma ampla mobilização para levar luz à escuridão do submundo das fakenews e à ladainha ideológica contra as vacinas.
No final do irresponsável e presunçoso vídeo ainda tem uma pérola. O autor cita uma frase de Ronald Reagan: “Basta apenas uma geração para que se perca a liberdade” (sic), fazendo alusão a uma ideia deturpada de liberdade individual.
Acontece que essa frase não é a original, está sem sentido e também foi utilizada de forma totalmente descontextualizada. Em 1967, quando assumiu o governo da California, Ronald Reagan proferiu as seguintes palavras no seu discurso de posse “Este fato continuado de que o povo, por processo democrático, pode delegar poder e ainda assim reter a custódia dele. [...] A liberdade é uma coisa frágil e nunca está a mais de uma geração da extinção”.
Não faltando com a honestidade intelectual, dá para perceber claramente que o então governador eleito da California não faz menção ao termo “liberdade individual”. Na verdade, ele utiliza a palavra liberdade em relação ao processo democrático.
As desinformações presentes no citado vídeo são tão primárias que pessoas com o mínimo de bom senso e informação percebem que não passa de um material tosco e com comprometedor viés ideológico. Lamentável pobreza de espírito em plena pandemia.