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Meio ambiente

Amazônia, a tragédia que sempre foi

A morte do indigenista Bruno Pereira e do jornalista Dom Phillips poderia ter sido evitada desde o início do século XVII, quando a ganância invadiu a virgindade das florestas

Publicado em 21 de Junho de 2022 às 02:00

Públicado em 

21 jun 2022 às 02:00
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates

paulobonates@uol.com.br

Lá pelos anos 50, navegando nos navios “gaiolas” pelo Rio Amazonas, formado pelos caudalosos Negro e Solimões, de cores que não se misturam - barrento e negro –, víamos ainda crianças, meu irmão Sergio e eu, imensas bolas e bolas de borracha extraídas do cortar nas seringueiras para a extração do látex.
Índios e seringueiros passavam o leite-látex no fogo e assavam, rodando até endurecer. Botavam um precinho de nada ou trocavam por parcos mantimentos, uma mixaria. E os viajantes com seus batelões enchiam a pança. Ainda mais que as árvores seringueiras distavam até quilômetros umas das outras, o que tornava o trabalho muito árduo e a produtividade baixíssima. E tudo era trocado ali mesmo no barranco, na beira do rio.
Depois, era beneficiado em Manaus onde as empresas inglesas, em sua maioria, cuidavam do assunto. A Manaus Harbour cuidava do comércio e do transporte da borracha bem na beira do moderno cais flutuante. Dizem que até os alemães andaram cutucando por lá, afundando navios, inclusive.
Durante a Segunda Guerra Mundial, os aliados retiravam o produto de Manaus onde era beneficiado com mais e melhor resolução, para ser utilizado na guerra. Era muitíssimo importante, já que a borracha sintética iria ainda ser plantada e industrializada na Malásia - onde a plantação de seringueira era sistematizada em quantidade e organização industrial. Já não daria mais para competir.
Então, a solução foi atacar com unhas e dentes a madeira, que sempre foi de primorosa e única qualidade mundial. Desde aquela época, anos 50, nós crianças sabíamos que havia os seringueiros mortos de fome e os seringalistas, os donos cheios de dólares. Em todos os sentidos, a vida desses trabalhadores sem comida suficiente era o resumo do nada. Olha que andar quilômetros por entre selvas perigosas, repletas de feras, atrás de um ponto para sangrar, entre milhares de outras espécies de árvores, era tarefa quase hercúlea.
Que eu me lembre, havia em Manaus o Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia (INPA). Mas não promoviam vigília ou proteção das matas, nem sequer nos arredores da Capital, como agora. Não havia, e acho que ainda não há, de forma organizada e abrangente. O que há é um montão de cargos e siglas.
Respeitável público: a morte do indigenista Bruno Pereira e do jornalista Dom Phillips podia ter sido evitada desde o início do século XVII, quando a ganância invadiu a virgindade das florestas. Os índios foram se escondendo, se protegendo, cada vez mais para o centro da selva, vindo de todas as direções.
Os indígenas tinham a tradição de conservar o território de aldeia até acabar os suprimentos de sobrevivência produzidos, daí partiam para outras terras virgens, para um novo ciclo. Iam embora deixando o terreno fertilizado. Depois, quando as sementes germinavam, voltavam para o lugar anterior, sempre o mais possível possível dos rios, por conta da pesca de sobrevivência.
Havia pacus, pirarucus, matrinchãs, tambaqui, pescada, e entre milhares de outros, além de um monte de animais para caçar e comer na beira do rio: paca, tatu, cotia, tartaruga, jacaré. cobras, lagartos, etc, por todo o lado. Era muito bonito ver de longe. Uma fauna infinita. Dá para imaginar o que significa incendiar isso tudo para ser fazendeiro.
Foi acabando, digamos, o lugar anterior das aldeias, que foram dando lugar aos invasores assassinos, que invadiram e continuam invadindo em ritmo acelerado a terra dos índios, que agora são obrigados a fugir da própria casa, seja lá para onde for, até para a fronteira. Estão aí os satélites que não me deixam mentir, denunciando o fim da Amazônia.
Depois, acharam petróleo e ouro. Apareceram as refinarias e as técnicas de extrair de barco-batelão o ouro dos rios, impregnando-os de metal pesado, letal para os humanos. O mesmo cenário de hoje.
Igualzinho como sempre foi.
O resto é conversa fiada.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, chora.

Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

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