Nada acontece por acaso
Acabo de saber que o bloco carnavalesco “Que Loucura” levará a luta antimanicomial para o Sambão do Povo, a desfilar pela primeira vez nessa passarela.
Eu já dancei de verdade nesse bloco em priscas eras como psiquiatra. Quando o movimento iniciou na Itália, pelos psiquiatras Franco e Franca Basaglia, nós aqui no Brasil aderimos. A humanização do tratamento à pessoa necessitava dessa ajuda, e espalhou-se por todo o mundo.
Nesse instante, um grupo humanitário e eu contra os moldes e maneiras dos diagnósticos, trabalhávamos no então Hospital Adauto Botelho com mais de mil internos. A bem da justiça, psiquiatras antigos e nossos professores já estabeleciam uma luta pela humanização com os psiquiatras Antônio Barcellos, Cesar Mendonça, Alaor Queiroz, José Carlos Pereira do Vale, Alcides Silva, Luiz Amorim, Euclides Brotto, Gilvandro Pinto Moura e Silva. O apoio de todos eles foi fundamental para o sucesso do que seria nossa missão.
Quando assumi a Direção Clínica do Adauto tive todo o apoio para iniciar ali a luta antimanicomial. Quase ao mesmo tempo, um gerente do INPS, José Luiz Martins, nomeou uma comissão, sob minha direção, para trabalhar um planejamento que visasse à modernização do atendimento psiquiátrico no Estado.
Foi assim que a equipe formada pelos psiquiatras dispostos a engajar-se na luta antimanicomial, que tive a honra de liderar, aconteceu. Distribuimos as tarefas entre Eliana Vicentini, Guilherme Lara Leite, Ruy Perini, Luiz Henrique Puppim, Rachel Pêssoa, Maria das Graças Ruy, Liberato Tristão Schwartz, Vanessa Torres, e last but not least, Fausto Amarante. Além dos psicólogos Pedro Brandão e Ítalo Campos, importados de Minas Gerais, e dos inesquecíveis José e Maria Periquito, e poucos outros, perdoe a minha já gasta memória.
Queridos sambistas do "Que Loucura”, nós cantamos com toda a força que dispunhámos na tarefa que parecia impossível. Em todo o Espírito Santo, a passos largos, a doença mental era libertada do conceito de violência.
O Plano Geral constava basicamente na criação de um sistema de triagem para o Adauto, um plano para atendimento domiciliar no lugar da internação, quando indicado. Essa corrente ideológica também era transmitida e discutida com os alunos de medicina que estagiavam no hospital.
Na onda desse movimento – fiquei uns dez anos na direção clínica – foi criado um novo modelo ainda que experimental, o Centro de Psiquiatria Comunitária, uma comunidade terapêutica, a primeira e única no Estado. Um sistema de enfermaria/dia. Paciente triado, entrava pela manhã e saia no final da tarde, depois de participar de várias atividades que não havia antes.
Além disso, conseguimos, ainda, colocar em funcionamento o Primeiro Pronto-Socorro Geral – o São Lucas – com equipe de psiquiatras plantonistas, o primeiro em todo o país, integrado ao clínico.
Esse grito de libertação clareou o sistema assistencial do Estado. Não foi possível para a jovem equipe completar a tarefa totalmente, mas ficou concluída a ideia, entre outras coisas, que segundo a qual afasta a concepção de doença mental como sinônimo de violência. Não foram poucas as vezes, antes do movimento, que pacientes literalmente acusados de loucos eram transportados não através das ambulâncias, mas pela polícia.
É claro que existem muito mais coisas a contar. Devo reconhecer que os fundadores do Adauto fizeram de tudo que lhes era possível para amenizar a ideia que pairava não só nos hospícios, mas em todo o imaginário social.
Respeitável público, não é fácil lidar com este preconceito absurdo e letal até hoje. A palavra louco é usada como forma de depreciação do outro.
Atualmente, o Estado, assim como o mundo, está repleto de locais de encarceramento de pessoas com o diagnóstico de loucura. É bem próprio do carnaval, seu ritmo, denunciar o sofrimento do povo, como vai fazer o bloco “Que Loucura”.
Se Deus quiser eu e meu tamborim voltaremos para cantar pela liberdade daqueles que se mostram diferentes.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, vai comigo.