Sair
Assine
Entrar

Crônica

Com perdão de Pelé, o gênio de Garrincha

Desde essa época, tenho certeza de que as habilidades individuais tipo chápeu, banho de cuia, canetas e dezenas de maneiras de confundir o inimigo enriqueceram o futebol brasileiro, essa arte de bailar

Publicado em 06 de Junho de 2023 às 00:25

Públicado em 

06 jun 2023 às 00:25
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates

paulobonates@uol.com.br

Trecho do filme 'Garrincha, Alegria do Povo'
Trecho do filme 'Garrincha, Alegria do Povo' Crédito: Reprodução
Decisão de Copa do Mundo de Futebol. O adversário do Brasil jogava no seu terreiro. Dois minutos depois do apito inicial, sem deixar o nosso time encostar na bola, a Suécia em quatro passes inaugurou o placar. A depressão baixou nos jogadores no gramado da Suécia. Ficaram olhando um para o outro.
Naquele tempo, 1958, não haviam inventado a televisão e a transmissão radiofônica era uma piada. Os ruídos da era do rádio mal podiam ser ouvidos. Eu estava lá em Manaus. Melhor dizendo, menino apaixonado, encostando o ouvido no Phillips para ouvir melhor. Lembro que tia Cecy, um pouco distraída, quis saber: gol de quem?
Foi então que se deu o encanto. Papai fazia de tudo para transmitir a transmissão, toda a família concentrada no sofá. Só depois de uma semana, juntando as peças, lendo as revistas especializadas e assistindo a um cine jornal ao ar livre projetado gratuitamente para a torcida apaixonada, é que viríamos imagens do jogo.
Então.
Eis a cena. Após o gol relâmpago da Suécia, um dos melhores jogadores verde e amarelo, de calma e habilidade irretocáveis, caminha e calmamente pega a bola alojada no fundo da rede nacional e retorna ao meio de campo.
Coloca a bola bem no centro do gramado e sem dizer nada, arte é arte, olhando para lugar nenhum, acionou a nunca suficientemete reconhecida inteligência de Garrincha. Ele era daqueles que confiavam e investiam na habilidade individual deixando para o segundo plano o conjunto.
A obediente pelada seguindo a ordem do dono – Didi – cai milimetricamente aos pés de Garricha, que faz o que estava cansado de fazer: mata a pelota, entorta três marcadores, e cruza exatamente nos pés das chuteiras do centroavante verde e amarelo Vavá. Até o técnico Feola, que costumava dormir durante os jogos, acordou pulando.
Nosso rádio melhorou o sinal comemorando.
Daí em diante foi um baile. Além dos citados, estavam lá Di Sordi, Belini, Nilton Santos, Pelé e Zagalo. No meio da partida, absorvendo religiosamebte as jogadas vindas lá da Suécia, a vibração aumentou porque um certo Edson Arantes do Nascimento resolveu bailar dentro da área adversária.
Depois, viemos saber que até a torcida adversária aplaudia as jogadas daquele que na época era apenas um príncipe. O sereno goleiro Gilmar não se mexia, limitando-se a olhar as pelotas chatas para seu gol. Mas não entrava de jeito nenhum.
Desde essa época, tenho certeza de que as habilidades individuais tipo chápeu, banho de cuia, canetas e dezenas de maneiras de confundir o inimigo enriqueceram o futebol brasileiro, essa arte de bailar.
E a sua influência explica as manobras de Neymar, Messi, Ronaldinho, Zico, Ganso, Cano, Ronaldo Fenômeno, Tostão, Maradona, Rivelino, Gerson, Ademir da Guia, Bololô, e outros que virão. São inúmeras as manobras. Essa paixão da euforia verde e amarela nos estádios e campos de futebol, com técnica e beleza, transformou-se em violência. É preciso que essa arte e ciência não se entreguem aos interesses vis.
Assim é, minha senhora, que o conjunto só funciona quando tem suficientes jogadores que fazem o que querem com a bola, enlouquecem o adversário e derramam o mais saudável prazer ao bravo povo.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, late com arte.

Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Imagem de destaque
Lei da Atração: 5 passos para você conquistar o que deseja
Imagem de destaque
Brasileiros veem sonho da cidadania ser adiado após mudança na lei em Portugal
Imagem de destaque
Espírito Santo produziu quase 4,6 bilhões de ovos em 2024

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados