Na seção “Ponto de Vista” da Revista Veja, de 18 de maio de 1994, um gigante da medicina, o gaúcho Carlos Grossman, um dos criadores do Programa de Saúde da Família, considerado um ícone em medicina interna e psicossomática, começa seu artigo de uma página advertindo que “as faculdades deveriam ser acionadas por colocar no mercado um produto perigoso disfarçado de médico”.
Tem de tudo nessa missão dedicada ao próximo, ou deveria. São raros os governos que sequer pensam em um salário digno para a categoria que sofre em principio com a contaminação, isto é, cada consulta pode ser um contágio. Isso em um país que possui legítimas referências na profissão, reconhecidas em todo o mundo.
Deduzo que ele quis alertar para os atos de formação que apresentam falsas crias. Hoje, é apavorante o que ocorre em alguns atendimentos. E são raras as instituições que representam a classe, que atua em defesa do doente, defendo-o do adoecer.
Ao contrário dos mandatários e seus imensos salários sugados do erário público, cujos membros sequer têm um arremedo de formação técnica e são indicados graciosamente por outros indicados, e assim por diante, já faz tempo que não se regulariza a entrada e a formação médica através de concursos públicos, por exemplo.
Já os salários dos médicos do serviço público, melhor nem falar agora. Não são raras as faculdades de medicina plantadas em fronteiras que produzem o pior dos profissionais.
É claro que são a minoria. Mas não importa.
Há mais de 30 anos, Grossman já alertava para a má formação médica, citando um caso concreto. É bom lembrar que a maioria dos médicos brasileiros são verdadeiros artífices da competência e da vida. Eu escrevo para alertar a plebe rude.
Disse Carlos Grossman:
“A morte do menino Lucas Rafael Costa Nascimento, de 4 anos, ocorrido no mês passado em Porto Alegre, mostrou que o médico pode fazer mal à saúde e até ser fatal. O caso de Lucas expõe o fracasso do sistema de formação dos médicos, dos sistemas prestadores de serviços de saúde e da própria sociedade. Ele morreu depois de buscar socorro em cinco hospitais e ser atendido por sete médicos no decorrer de quatro dias de sofrimento. Apresentava quadro com manifestações simples: febre alta e dor na perna esquerda.
Vale alertar para o atendimento que Lucas recebeu e o que foi dito e feito pelos médicos. No primeiro atendimento, no sábado, um médico diagnosticou gripe e disse que não era grave.
No segundo, no dia seguinte, ele apresentava febre entre 39 e 40 graus e os médicos decidiram consultar um traumatologista para daí a nove dias. Em uma segunda-feira foi encaminhado de um hospital para outro, onde lhe fizeram um Raio-X da perna e saiu o diagnóstico – provavelmente correto - de infecção no osso referido.
Foram receitados anti-inflamatórios, mas não antibióticos. Na terça, ele estava com o corpo gelado e os lábios roxos. A mãe levou-o a um quinto atendimento. O médico garantiu não ser nada grave. O menino continuou a maratona de um até parar no Hospital Pronto Socorro de Porto Alegre a 1h da manhã. Morreu em seguida”.
Diz Grossman:
“A pergunta que se impõe é por que se chegou a essa situação na qual o cliente só recebeu arremedos de atendimento adequado? Lucas tinha uma doença aguda, infecciosa grave e com evidente localização na perna esquerda – e nunca recebeu o tratamento correspondente. Nenhum dos médicos foi capaz de adotar o menino, de interná-lo ou mantê-lo sob observação clinica rigorosa nem que fosse em um colchonete. Ou maca ou chão, mas junto de quem fosse capaz de se interessar por ele. Os médicos têm que se rebelar contra o que aí existe. Rebelar-se contra a metamorfose de médico em monstro, de estudante idealista, em profissional subtraído de competência”.
E compaixão.
Grossman recebeu o título de Cidadão Emérito de Porto Alegre, em 1997. A medicina comunitária do Rio Grande do Sul é a mais eficiente teórica e praticamente do Brasil, em parte graças a ele, Ellis Busnello e equipe.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, tem os olhos rasos d’água.