Quando vejo o Estado do Amazonas pegando fogo sob o olhar complacente e incompetente das poderosas autoridades e da indiferença dos Três Poderes quero afogar com lágrimas a minha dor.
Da minha infância em Manaus, onde nasci e fui íntimo das matas, rios, cupuaçu e tacacá, tudo parece agora tão distante. Sinto-me, no momento em que escrevo, caminhando na rua Lima Bacuri bem no centro da cidade, nos anos 50. Naquele tempo ainda era calçada com pedra-jacaré.
No casarão número 290, onde morávamos, tinha um porão que seguia a mesma planta do casarão. E o fundo dava para um quintal repleto de árvores, duas goiabeiras, um açaizeiro, uns dez de mamoeiros, que me lembro, e um insólito galinheiro com patos, pintos, marrecos e perus…Um cão de estimação com caninos eficazes - o Nero - sempre alerta passava o tempo cheirando um jabuti. Folhas secas e plantas para remédios davam pra chuchu.
Então.
Bem em frente à casa, a Vila Costa. Na verdade um longo beco sinuoso que ia dar no Igarapé de Manaus, que desembocava no Rio Negro. Na cheia subia e na vazante descia dentro do previsto. Vocês sabem por que o Rio Negro é negro? Não digo.
Digo sim, pela profundidade.
Voltando para a Vila Costa, a casa dos vampiros, como apelidamos, a garotada subia nos batelões, mergulhava de cabeça na água e saía do outro lado da embarcação aportada no local, cheia de mercadorias recolhidas nas margens.
Quando voltávamos, a turminha lá de casa já sabia: Dona Mariucha, mamãe, esperava com a punição em punho, um exercício extra de inglês. Era perigoso para nós esse hábito: havia peixes, jacarés e tracajás naquelas águas deliciosas. Valia a pena, nunca tomamos vergonha na cara, graças a Deus. O prazer sempre foi melhor que a dor.
Em qualquer pedaço da Rua Lima Bacuri se acendia fogueira no quintal, onde havia mato e bichos domésticos. Peixes gostosos como pirarucu, matrinxã, pescada iam desaparecendo aos poucos.
Imagine a senhora, tartaruga não tinha ali, só em praias específicas de água doce. Elas esperavam mil anos para serem viradas de casco para baixo e devoradas ou vendidas aos montes por mercenários de tudo quanto é lado, até praticamente acabar.
Quando menino, soube que no interior do Estado sapecavam mercúrio para tirar ouro e matar os pirarucus e que o mais estivesse respirando.
Tudo entregue à farsa e à indiferença das autoridades encarregadas de preservar o meio ambiente. Isso há anos atrás.
A volta dos que não foram.
Muitos anos depois, já residindo fora, fui visitar a Vila Costa para matar a saudade. Já então repleta de modernas residências, continuava dando para o nosso beco querido. Acelerei o passo e o coração. Não é todo dia que se encontra concretamente com o passado.
No Igarapé de Manaus, nem uma gota d´água.
Nessa época, havia enormes clarões, onde sossegavam as árvores roubadas e queimadas para criação imoral e ilegal de gado e outras milongas mais, como as seringueiras.. nunca se viu maior bandidagem e farra da lei.
Então.
Os caboclos e os índios, os primeiros moradores da terra amazonense, humanos e inteligentes, plantavam, criavam, comiam, capinavam e mudavam de lugar para preservar a vida e começavam de novo em um outro lugar.
Agora, é quase impossível restaurar qualquer coisa.
Deus se apiede da Terra.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, tenta esconder, mas eu noto escorrer uma lágrima solitária.