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Crônica

O tom de Antônio Carlos Brasileiro Jobim

Para quem acha que a única ação política do músico era beber uísque com Vinicius de Moraes, Chico Buarque e Toquinho, saibam que sua vida foi dedicada ao meio ambiente e ao ser humano brasileiro

Publicado em 25 de Novembro de 2024 às 07:10

Públicado em 

25 nov 2024 às 07:10
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates

paulobonates@uol.com.br

Um amigo músico cifra-me uma explicação sobre a arte de Antônio Carlos Jobim. Nela, mostra como o músico foi completa e inteiramente dedicado ao meio ambiente.
Em certa época de minha diversa existência apertei as primas e os bordões de uma doce viola, com certa elegância, de modo que pude traduzir na escuta o acento do músico nas notas, claves e espaços com o que cifrava seu melódico amor à natureza e a natureza do amor.
Antonio Carlos Jobim ao piano
Antonio Carlos Jobim ao piano Crédito: Reprodução | site www.tomjobim.com.ar
“Águas de março”, que cantava com Elis Regina, fala e tecla a luz da manhã, o que é bonito demais. “É pau é pedra, é o fim do caminho, águas de março, passarinho na mão, o fim da picada, é a lama, é a lama, fechando o verão, febre terçã…”.
Evoca a natureza no verso “é pau é pedra” e o impacto de citar Matita Pereira encantou Elis Regina e todos nós. Tom se envolve com as lendas amazônicas e deliciosamente cita o folclore nacional. Matita é uma bruxa velha que se transforma num corvo ou em uma coruja rasga-mortalha. À noite assovia estridente nos telhados marcando os rituais de promessas religiosas do povo.
Aliás, a canção “Águas de março” torna música a passagem do verão para o outono, tempo de chuvas torrenciais de março. A água é promessa de vida no coração. Tudo conjugado na terceira pessoa. É o fim do caminho… 
Então.
Em “Wave” - onda - Tom exibe a intempérie do amor, usando como metáfora as ondas do mar, da formação à quebra na praia. As ondas podem sustentar unidas e felizes duas pessoas, amantes de preferência. Mostra a integração do amor. Amar é estar na mesma onda do mar, lembra. Quem duvidar vai ser comido pela Matita Pereira, como ensina Tom em “Águas de março”.
Para quem acha que a única ação política do músico era beber uísque com Vinicius de Moraes, Chico Buarque e Toquinho, saibam que sua vida foi dedicada ao meio ambiente e ao ser humano brasileiro.
Escutei muito Tom e seus tons, aliás. Respeitem os idosos ou coisa parecida que se graduaram, pós-graduaram, mestraram, doutoraram e pós-doutoraram, discutiram profundidades da filosofia sem consultar o Google.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, late em sol maior.

Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

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