Quando Cariê Lindenberg me convidou para participar de um livro que iria escrever, o “GLS - Entenda as Entendidas”, editado em 1996, sobre sexualidade humana, pude pensar sobre significados e significantes dos estereótipos da sexualidade humana e as suas representações. A ideia para mim não tinha uma razão de ser. Estava longe da natureza, por assim dizer.
Esse tipo de lei em que a aparência ou o desejo determina a identidade da pessoa sempre esteve longe da minha casa desde a infância. Aliás, meu pai contava a história de um amigo que desconfiando da orientação do filho único, indesejada por ele, de transitar entre feminino e masculino, identificados pelos seus gestos que traíam a intenção, tentou intervir usando como argumento, algo assim:
- Meu filho, você sente atração por seus colegas porque não conhece ou sabe verdadeiramente o que é uma mulher. Mulher é linda, doce, pensa, carinhosa, mãe....
- Então eu quero ser mulher, respondeu.
Nomeei meu escrito, inserido no livro, de “Um mergulho em um claríssimo escuro”.
Tenho a impressão de que sempre foi muito claro a própria natureza sociológica das culturas e suas nomeações disso ou daquilo no que se refere à identidade ligada ou referida à sexualidade, digamos.
Procuro na minha experiência, na função de médico psiquiatra, psicanalista e, neste momento, procurando as intrincadas ligações psicossomáticas, ou nas lembranças da minha formação em Mestrado de Educação, sob a inteligência de Janete Carvalho, encontrar realidades plurais que possam me ajudar na compreensão da palavra do outro, da outra, ou de quem for.
E, neste momento, passados alguns anos da edição do livro do Cariê, tendo eu como um dos parceiros, procuro quais colocações elaborei.
Pensei na minha personalíssima estatística. Nesses muitos anos de exercício ininterrupto de psicoterapia em hospital, consultório de atenção primária e pronto-socorro, tendo recebido muitos pacientes, jamais ouvi uma queixa que contivesse a intenção de mudar ou adaptar a sexualidade, no sentimento ou na aparência, ou demonstrar sofrimento por causa disso. Tinham coisas que doíam, mas não eram dessa ordem. Fiz o que pude e ainda posso na abordagem Self Objetal, mas nada ligado a erros de identidade profunda do ser e viver.
A teoria cartesiana proposta por Sigmund Freud, explicando o que chamou “Complexo de Édipo” e do mecanismo das identificações projetivas, aventando a ideia, entre outras, de que a vagina seria a ausência de pênis, me parece forçadamente simplificada demais.
Infelizmente, na ciência formal, quando não se pode provar ou defender um conceito, cria-se uma regra autoritária a respeito. Então, a ciência não precisa ser verdadeira, mas consistente. Os deuses da pesquisa que me absolvam.
Então, por essas e outras, não se poderia admitir, o conceito de uma modalidade única de sexualidade. Nem tudo tem explicação racional.
No “Mergulho…” relato que venho acompanhando à média distância as conquistas no Direito Civil nas diversas apresentações do exercício da sexualidade, tanto de politica de direita, esquerda, em cima, embaixo, etc e tal.
Muito tempo e pouco espaço, muito espaço e pouco tempo. E muito há que rolar até que uma definição caiba dos livros didáticos.
Tomara.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, dorme tranquilo sem jamais ter pensado nisso. Diz ele.